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Meu refúgio

Depois de tanto  caminhar pelo mundo, vagando por terras distantes, a gente perde os referenciais e, às vezes, quando acordamos sobressaltados no meio da noite, são necessários alguns momentos de reflexão para reorganizarmos os pensamentos e sabermos em que tempo, em que país, em que estado, em que cidade, em que leito nos encontramos.

Durante todos estes anos, desde que deixei a casa de meus pais, em minha hoje tão distante juventude, por inúmeras vezes acordei ansioso olhando para as escuras paredes do quarto em que me encontrava, procurando identificar através das janelas, pela posição das estrelas no céu, em que hemisfério,  as  latitudes e longitudes de minha angústia.

O mundo dos sonhos sempre nos prega peças, conduzindo-nos para tempos, situações e lugares diversos dos que estamos realmente vivendo no momento, e é necessário até mesmo um certo esforço de memória para reconduzirmo-nos à realidade.
 
Todo o mundo, cada um de nós, necessita de um canto, um lugar, um refúgio onde finque  suas raízes, onde reencontre  seus valores, onde preserve suas mais recônditas lembranças, restaurando as forças que a roda da vida vai consumindo aos poucos, a cada dia de nossas existências.

Talvez por ter interrompido um pouco mais cedo do que gostaria ou deveria os doces tempos de juventude, deixando para trás a irresponsabilidade e iniciando uma vida profissional em outras cidades, sozinho, distante de meus familiares e com as posteriores mudanças de residência de meus pais, a casa de minha irmã, Lucinha,  tornou-se  meu ponto de referência não só em Mimoso, mas no mundo.

E,  nestas noites de sonos sobressaltados,  quando me é permitido identificar a maciez e o suave perfume de seus lençóis,  afugentam-se os fantasmas que me perturbaram, sinto-me como que protegido no colo materno, envolvido por braços num abraço de acalanto e que me permite voltar ao sono tranqüilo, como se estivesse de volta ao lar.

Ademais, por ali também encontrar, nela e em Vaninho,  meu bem mais que um cunhado, irmão, os ouvidos sempre atentos as minhas divagações, angustiando-se com  minhas angústias, chorando em um abraço fraterno todas  minhas lágrimas, rindo minhas felicidades, realizando-se em minhas realizações  e voando com os pés no chão  ponderando  meus sonhos, nela encontro meu refúgio e para onde sempre acorro, ainda hoje, homem feito, pai, quase avô.

Com  sua mesa de café sempre posta como que a minha espera, ora com um bolo não destes de caixinha que se compra em supermercado, mas batido à mão e assado em tabuleiro, ora com a papa de milho ou os biscoitos de polvilho que como mais do que a educação recomendaria não me sentisse em minha própria casa, é como se voltasse aos tempos de criança, aos costumes e hábitos que a modernidade vai apagando aos poucos e fazendo com que tudo isto se tornem lembranças, doces e vagas lembranças de um tempo que passou e que já nem mesmo mais posso  assegurar que aconteceu.

Ali, retorno ao sentarmo-nos à mesa para as refeições, todos juntos a um mesmo horário, quase ritual, pontualmente as doze horas e quinze minutos como se Vaninho ainda tivesse que cumprir  seu horário bancário, bem diferente dos de restaurantes na cidade, em meio a estranhos, com pratos sem forma, sem cheiros, sem sabores.

O peito da Sinéia, ou melhor dizendo, o peito de boi  que a Sinéia prepara  assado,  com  farofa e salada de couve é digno de cardápios dos melhores restaurantes internacionais; o galo assado, a galinha caipira ao molho pardo que não se consegue fazer por aqui, com  estes frangos esquálidos,  brancos e insossos de granja, como se fossem de plástico, antecedidos  pela pinga pura,  incolor, forte e sem aquele cheiro característico de pingas de botequim,  são o que considero a melhor comida que já provei em toda  minha vida.

E como resistir aos doces de frutas, de mamão verde, de laranja e de figo, sempre prontos como que a minha espera, ela acostumada com o imprevisto de minhas chegadas, sempre correndo e de passagem para algum lugar, em constante busca de sei-lá-o-quê.

Sentar-se à varanda, após o cafezinho, fumando um cigarro e batendo papo furado, falando dos últimos acontecimentos, dos resultados do Flamengo, das últimas pescarias, lembrar de momentos  e fatos passados fazem com que me sinta em casa, como que há muitos anos atrás.

E este meu refúgio tem características bem especiais, bem mais que físicas,  transcendentais,  pois a ele me transporto até mesmo quando à distância, em meus momentos de angústia, de buscas e indefinições, pois ele é constituído não só pelo lugar  em si, mas pelo espírito que dele emana.

E este espírito, a essência da casa de minha irmã, eu o sinto até mesmo ao  ouvir sua voz  meiga e suave atendendo o telefone, com o seu  “alô-ô”  arrastado e estendido de uma forma meio que musical,  peculiar e única, que faz com que se desvaneçam todos os temores que me afligem, sinto-me novamente em casa, junto dos que me são queridos, finalmente em  meu refúgio, mesmo que somente em  pensamentos, em minhas lembranças...

Doces lembranças com  gosto de saudade!
LHMignone
Enviado por LHMignone em 24/09/2005
Reeditado em 02/02/2013
Código do texto: T53424
Classificação de conteúdo: seguro
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Sobre o autor
LHMignone
Mimoso do Sul - Espírito Santo - Brasil
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