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Discutindo a relação

Situação:

Ana Lucia, designer de jóias, 46 anos. Fábio, executivo de contas de uma multinacional, 50 anos. Casados há 20 anos e com dois filhos adolescentes.

Cena:

Fábio sentado na beira da piscina lendo seu jornal. Ana Lucia se aproxima, senta-se ao lado dele, e com segurança e delicadeza diz:

—  Fábio, preciso lhe dizer uma coisa.

Após anos de convivência, Fábio já sabia distinguir perfeitamente quando a mulher queria falar algo a respeito da relação de ambos.
Como sempre fez, suspirou tédio, olhou-a com desinteresse por sobre os óculos, deu uma aspirada em seu cachimbo e ficou em silêncio.

Com naturalidade e segurança, Ana Lucia falou:

— Quero o divórcio! Estou com o advogado que irá cuidar dos detalhes com você ok?

Fábio levou alguns segundos para processar as palavras da mulher, e quando se deu conta do seu significado, dirigiu-se a ela completamente atônito:

— O que você está dizendo? Como assim o divórcio? De repente você senta ao meu lado e fala isso assim... O que há de errado? Não consigo entender; tudo parecia normal entre nós.

— Exatamente, parecia. Eu tentei conversar com você muitas vezes, mas você sempre foi muito evasivo. Nunca quis sentar e ouvir o que eu tinha a dizer, saber como me sentia. Você é o tipo de homem mais comum, aquele que não suporta "discutir a relação". Só que pessoas como você se esquecem que os problemas existem, e não vão desaparecer se fugirmos deles. E se não forem encarados e resolvidos, só tendem a piorar. É isso, simples.

— Você deve estar brincando. Isso não se resolve assim.

— Claro que não; isso poderia ter sido resolvido e até evitado durante muito tempo. Mas você não achava necessário conversarmos.

— Mas temos que resolver isso de outra maneira...

— Não temos o que resolver; já está resolvido.

Fábio continuava olhando-a perplexo.

— Me diga, o que eu fiz de errado? Deixei que lhe faltasse alguma coisa? Eu a magoei de alguma forma? Fale-me, eu preciso saber o motivo dessa sua decisão tão drástica.

Nesse momento Ana Lucia sentiu-se muito cansada. Olhou para o marido com desânimo e falou:

— Não existe um motivo; são vários e nenhum deles foi resolvido quando devia. Não vou falar sobre nada disso agora, pois estaríamos começando a “discutir a relação” e você não acha que isso seja importante. Para você, parece que essa minha decisão é precipitada, mas pensa assim, porque sempre se negou a dar atenção aos nossos problemas e aos meus sentimentos. Tive que administrar essa situação sozinha e sendo assim, tomei a liberdade de dar o desfecho que achava mais certo. Vocês homens acham um tédio falar sobre o relacionamento, e deveriam abrir os olhos quando a mulher desiste de falar também. Quando isso acontece, é porque ela está jogando a toalha, perdeu o interesse, cansou. E foi isso que aconteceu comigo.  Se você vier a se relacionar com outra pessoa no futuro, lembre-se de que enquanto “a chata” da sua mulher estiver tentando resolver os problemas entre vocês, é porque você ainda a tem ao seu lado. Quando ela desistir de tentar, pode saber que a está perdendo.

Ana Lucia levantou-se, entregou o cartão do advogado ao marido, e saiu em passos firmes, respirando liberdade, rumo ao caminho que se abria diante dela. E jamais olhou para trás novamente.


Renate Kirschen
Enviado por Renate Kirschen em 27/09/2005
Código do texto: T54187
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Sobre a autora
Renate Kirschen
São Paulo - São Paulo - Brasil
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