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LUGAR-QUADRO

LUGAR-QUADRO

 

Era um lugar estranho. Precisavam criar fatos para que tivessem a sensação de vida. Tudo parecia caminhar em câmera lenta. Não havia surpresas, magias, fofocas. Nada. Era um lugar-quadro, diria. Parado.
Naquela tarde, um vendedor de pirulitos passou pela rua e causou um rebuliço. Todos correram para comprar. Eram em forma de chupetinha.
Não demorou muito para que as pessoas saíssem à rua, vomitando, gritando que estavam morrendo. Tiveram tempo de pedir a um motorista de ônibus que os levassem ao hospital mais próximo. Eram vinte e cinco pessoas, mas, diante do fato, o motorista não titubeou. Levou-os.
Ficaram toda a tarde em observação, devido à intoxicação por anilina contida nas chupetinhas, tão encantadoras, tão vermelhinhas...
Quando chegaram, estavam alvoroçados, felizes por terem tomado soro pela primeira vez na vida. Sequer sabiam que algo pudesse entrar pelas veias. Achavam que só saía. O sangue...
E lembraram quando em uma corrida que planejaram na rua, justamente para sair do marasmo, um dos participantes teve a idéia de abrir um canivete exatamente na hora que outro passava à sua frente, cortando uma artéria de seu pulso. Foi um fato marcante... A morte, os companheiros carregando o caixão pelas ruas, o padre rezando, as donas puxando o terço, o sepultamento.
E agora as chupetinhas... Fato insólito!
À noite, naquele mesmo dia, quando se preparavam para dormir, um dos meninos, afogueado pelas emoções, pegou um pedaço de gelo e levou-o à boca, entalando-se .Não houve tempo para socorro. Asfixia, com direito a sepultamento concorridíssimo.
.Quem seria aquele vendedor de pirulitos?
Nunca mais as pessoas foram as mesmas, embora a mesmice ainda continuasse a imperar no lugar. Preferiram assim.
Acomodaram-se com a situação de lugar-quadro.
 
 


 
 
belvedere
Enviado por belvedere em 02/10/2005
Reeditado em 28/12/2009
Código do texto: T55734

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Sobre a autora
belvedere
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