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O BANQUINHO DO PIANO

Minha mãe tinha um piano e seu banquinho, é claro. Quando, após ter contraído a pólio, reaprendi a andar, alguém teve a idéia de colocar como apoio às fracas perninhas aquele banquinho. Eu me agarrava a ele e devo ter-me sentido independente, ia a qualquer lugar, não precisava mais chamar mamãe ou os irmãos para me conduzirem. Mamãe contava que, antes de terem a idéia do banquinho, eu ficava sentadinha no chão, olhando à minha volta, olhos atentos a tudo, como a querer me levantar e sair para ver o mundo. Mas era difícil, nem dava pra engatinhar, quando tentava caía, chorava e desistia. Descoberto o banquinho, até fora de casa eu me aventurava. Mas um dia, andando na calçada de terra batida e irregular, a rodinha do banco se enroscou em um buraco e eu caí por cima dele. Gritei muito até alguém me ouvir e me socorrer. Mamãe tratou dos arranhões com mercúrio cromo e beijinhos em cada pequeno ferimento, até me acalmar. Não me lembro de nada, mas penso que não tinha tantas dores, estava mesmo é revoltada com a “traição” do banquinho no qual eu tanto confiara. Desse dia em diante, não quis mais a ajuda do banquinho e voltei ao meu ostracismo, até voltar a andar com minhas próprias pernas.

Numa fase difícil de nossa vida, mamãe teve que vender o piano. Não sei se me importei muito quando os carregadores o levaram, mas quando um deles voltou para pegar o banquinho, dei o maior trabalho, pois me agarrei a ele, dizendo que ele era meu e não podia ser tirado de mim. Mamãe, que estava muito triste com a saída de seu piano, não entendia aquela birra, pois eu brigara definitivamente com o banquinho... mas interferiu e me explicou que ele era parte do piano e tinha que ir. Mamãe conta que chorei muitos dias, perguntando a toda hora quando trariam meu banquinho de volta. E cresci falando no banquinho que eu rejeitara, mas que queria ao meu alcance, parecendo entender que, num momento de perigo, ele estaria ali para me socorrer. Parecia que, com ele por perto, jamais eu me sentiria desamparada.

Lembro-me bem de muitos episódios de nossa vida em que o banquinho era lembrado e eu tinha a sensação de ter sido roubada. Demorou para eu perceber que aquela minha reação era natural, pois ele era um símbolo de força para mim, era a muleta que me permitia caminhar sem medo. E cada vez que eu caía – fato muito comum – não podia deixar de pensar no banquinho... Até hoje me lembro dele, tenho até uma foto na carteira: eu pequenina apoiada nele. Nunca consegui explicar a sensação de desamparo que senti ao perdê-lo e que me marcou pela vida inteira. Afinal, como diz todo o mundo, era um simples banquinho de piano!

Bem, frustrada ou não, me arrisquei e me entreguei à vida. Claro que toda vida carrega perdas e perdas. E a minha, sempre muito livre, me proporcionou experienciar muitas delas. A cada perda eu me arraso, me decepciono, me revolto e me entrego ao ostracismo. Sinto-me perdida, solta no espaço, injustiçada e roubada. E isso acontece mais forte ainda se a perda é de um amor, a perda afetiva. Quando amo e sou amada eu me sinto forte, amparada, corajosa. Sempre me apoio no amor e não consigo me ver independente dele. Quando ele se vai, mesmo que eu brigue com ele e o mande embora, não o quero longe, não aceito sua ausência e, ao ver a impossibilidade de tê-lo por perto, abrigo-o em meu coração e me orgulho de me preencher com todos os amores que amei. É uma forma, com certeza, de enfrentar a frustração da perda, situação que nunca trabalhei muito bem.

Não sei se Freud concordaria, mas ando pensando que cada um de meus amores foram banquinhos de piano que me foram roubados... Apoio, muletas, segurança... A criança que vive em mim, impotente, chora e se isola, acreditando que nada mais no mundo poderia me dar segurança. E eu continuo perguntando: quando vão trazer de volta o banquinho (ou amor) que, apesar dos meus protestos, levaram de mim?...

Sal
Enviado por Sal em 05/10/2005
Código do texto: T56802
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Sobre a autora
Sal
Marília - São Paulo - Brasil, 78 anos
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