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O SONHO

Um sono de repente, fora de hora, eu nunca dormia tão cedo. A novela estava num ponto que eu não podia deixar de ver: enfim Luíza ia encontrar o amado que esperava há anos. Queria ver sua alegria depois de tanto sofrer. Aquele sono incontrolável, os bocejos seguidos, os olhos ardendo e querendo fechar. A dor. Era a posição, deitada de costas, estava cansada. Virei-me de lado, fiquei olhando a imagem da TV pelo espelho. Assim está melhor, dá para controlar o sono e ver a novela até o fim.

Deitada, encolhida, posição fetal, cada vez me encolhendo mais, como um feto com medo de aborto. Frio, não era normal. Solidão brutal. Dor ameaçadora. Aquele coração enorme que batia disparado, sofria, opressão. Som insistente em meu ouvido colado ao travesseiro. Como um torniquete apertando aos pouquinhos. Sensação de morte. Precisava dormir, pagar no sono a prestação da morte.

Escuro e frio. Medo e abandono. Sensação de fome. Dor lancinante. O som rouco e insistente do coração enlouquecido cortando o silêncio sepulcral. Receio de abrir os olhos, pavor de ver o horror em torno. Eu mergulhada no nada.

Um som suave e distante, lento, confortador. Abri lentamente os olhos. Uma fresta de luz entrava pela porta entreaberta. Dentro da harmonia, a cadência de passos leves mas solenes. Sensação de paz. Não mais o medo, o coração fez silêncio, não mais o frio e a dor. A sensação de mãos acariciando minha face. Braços me enlaçando levemente. O calor de um corpo junto ao meu. O sonho venceu.

Abri os olhos. Ao meu lado a marca ainda quente de seu corpo. O sol entrando pelas frestas da janela. Sorri para a vida.
Sal
Enviado por Sal em 06/10/2005
Código do texto: T57150
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Sobre a autora
Sal
Marília - São Paulo - Brasil, 78 anos
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