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A ressaca que eu quero

Depois de pensar por trinta segundos, cheguei a conclusão de que a melhor forma para curar uma ressaca, seja ela física ou moral, é procurar não ser lógica e me abster de querer bancar a cientista política e adotar uma linha de raciocínio a esmo. Em outras palavras: é jogar as pernas pra cima e não levar tudo tão a sério. Melhor, não levar NADA tão a sério. Ah! Dane-se! Para que diabos fazer de tudo um cavalo de batalha? O mundo já é tão complicado sem isso... E parece que todo mundo se comporta da mesma forma se observamos de longe, mas, ao aproximar a lente e usar o máximo de seu zoom, vemos que as coisas não são bem assim. Há pessoas e pessoas e, são poucas aquelas que sabem sobreviver sem seqüelas a uma ressaca (será por isso que estamos vivendo essa loucura toda?). Isso incomoda o mundo, é mesmo uma merda de pedra no sapato. Essas pessoas, entre as quais me incluo, são o calo da humanidade. São (somos) o caroço da azeitona do recheio da empada que escapole pela glote com o propósito de incomodar. Bom, eu particularmente usaria o dedo do foda-se para me livrar do incômodo e dane-se, se você não pode vencê-los, junte-se a eles... E que tal seria seqüestrar o resto do planeta que não faz parte desse grupo seleto e levá-los para uma pequena seqüência de aulas sobre como viver mais sendo menos paranóico. Uma pequena e despretensiosa injeção de sobre como aproveitar a vida em dez lições! Rebanho por rebanho, o mundo se tornaria melhor, ou não... Vai saber... Com isso não quero dizer que sou melhor que ninguém, mas, com certeza me preocupo menos que a maioria das pessoas com coisas banais.

O inchaço das grandes cidades leva a um estado tão crítico de paranóia coletiva que as coisas mais absurdas são consideradas normais: “perdi o cadeado do portão, socooorrroo!!! Cadê a polícia????” ou “Os traficantes mandaram fechar o comércio hoje, melhor deixar para comprar aquela calça amanhã”. Ah! E a ressaca nisso tudo?? Não esqueci não. Justo ela que foi o que me levou a toda essa teoria de como me livrar do caos... Bom, a ressaca é apenas o gatilho social para a transformação da vida cotidiana. Parece loucura?? Não é... Viva a ressaca! É, porque nesses momentos em que sentimos o velho gosto de cabo de guarda-chuva na boca é que paramos para pensar em sobre como o mundo está virado. O mundo está ao contrário e ninguém percebe. Alguém aí lembrou da Cássia Eller? Pois é, não é por acaso... O mundo de hoje almoça violência e janta capitalismo, que diabos estamos fazendo com o planeta? E os tais valores interiores, onde foram parar? Na contramão da esquizofrenia geral que assola as cidades ainda existem pessoas que pensam como eu, que ainda querem lutar por um mundo melhor, com liberdade e justiça para todos (sem querer fazer qualquer alusão ao hino americano, por favor!). Todo mundo está metendo o pé na jaca, cada vez mais fundo, sem se importar se vão sujar os sapatos ou não. Pára tudo! Está na hora de rever conceitos, não acham? A bagunça generalizada se instalou de mala e cuia no planeta e as pessoas estão se lixando pra isso. Politicagem barata, falsa democracia, libertinagem disfarçada de liberação sexual, guerras por todos os lados (por causas que nem mesmo eles se lembram), desvalorização da cultura, super-valorização do capitalismo e por aí vai... Pára gente! Tem dó, né? Depois todo mundo reclama por ainda não ter sido comprovada a vida em outros planetas e nega ser primo e descendente dos macacos. Eu bem que queria ser macaco, eles são muito mais inteligentes que nós. O homem se vangloria por usar o raciocínio mas, será mesmo que usa? Engraçado, os filhotes dos macacos quando têm fome sobem num galho e vão em busca da fruta, mesmo que represente um risco cair do galho e se esborrachar. Eles simplesmente vão à luta. Os bebês humanos abrem o berreiro quando a barriga ronca, afinal, é muito mais cômodo chorar e ver a mamãe trazer o mingau, né? Se temos o cérebro tão desenvolvido por que não usá-lo em vez de simplesmente sentar e reclamar. E os extra-terrestres, por que eles não dão as caras por aqui? Ora, tenha santa paciência! Eu me coloco no lugar deles e penso: o que eu viria fazer num planeta onde todo mundo se gaba de seu QI superior enquanto destrói sua própria casa. Será que ninguém está vendo que a água do planeta está acabando, que as crianças dos países subdesenvolvidos continuam com fome, que o buraco na camada de ozônio ainda está lá, que a pobreza e a indigência estão aumentando e os valores diminuindo, que a violência está crescendo, etc, etc, etc. O que, hoje em dia, é considerado retrocesso ou avanço? Ninguém mais sabe... O mundo mais parece um Titanic, onde todo mundo bebe, fuma, canta e dança enquanto o barco afunda, sem se dar conta de que tudo está indo por água a baixo, inclusive a água. Com a grande diferença de que nós temos salvação, existem salva-vidas suficientes para todos, é só procurar. São tantas as questões que eu passaria o resto da vida escrevendo. E tudo isso não se trata de mera especulação, é fato. As coisas estão acontecendo e, será que é muito mais fácil fechar os olhos e fingir que nada disso está rolando? Será que é mais interessante varrer a sujeira pra baixo do tapete? É o que parece. Pelo menos é o que acho já que todo mundo se comporta dessa forma idiota e hipócrita. Mas, nem por isso deixo que minha fé no futuro seja bombardeada, muito pelo contrário, tudo isto só faz com que eu tenha mais vontade de fazer minha parte. E romper esse círculo vicioso caótico em que se transformou o mundo nas últimas décadas continua sendo não um sonho distante ou uma utopia, mas, uma meta, um objetivo a ser alcançado. E com ressaca ou sem ressaca, vou continuar vivendo com o meu jeito despreocupado em relação aos pequenos problemas insignificantes, reservando as dores de cabeça para as grandes questões e tratando de fazer um pouco que seja para tornar a vida melhor e o planeta um lugar habitável daqui a mil anos. Não existe nada que dê prazer e não provoque ressaca, então se temos que morrer de enxaqueca para vivermos tranqüilos, vamos limpar a casa.


T.C.R.


TCarolina
Enviado por TCarolina em 06/10/2005
Reeditado em 05/09/2010
Código do texto: T57321

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Sobre a autora
TCarolina
Campo Grande - Mato Grosso do Sul - Brasil, 41 anos
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