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A transparência do cotidiano

De tanto ouvir “Cotidiano”, de Chico Buarque, me pus a reparar nas coisas diárias. Sempre gostei de observar as pessoas, perceber o que as move e o sentido que empregam no que fazem. Essa minha tendência se fortificou depois que li um poema de Otto Lara Rezende, que diz estarmos com a “vista cansada” para as pessoas e coisas que nos cercam. Como as pessoas já haviam sido alvos suficientes de minhas inquietações, o efeito Chico Buarque-Otto Lara Rezende me direcionou aos objetos não-vistos de todo dia.
Tentando tirar o vício e o cansaço de meus olhos, quis ser surpreendida por uma nova antiga invenção. Inquieta, busquei por alguma coisa que de tanto olhar não mais a via e me pus a observar vários objetos como se os estivesse vendo pela primeira vez. Nada me falou coisa alguma. Que desânimo! Parti então para os materiais que compõem os objetos.
Tenho preferência por materiais não-frios como a madeira, o couro, o tecido... Olhei para a madeira do móvel, ela continuou imóvel; observei o couro de meus sapatos, ele continuou parado mesmo com meus pés em movimento; mirei o tecido das cortinas que sibilavam com o vento, ele ficou mudo.
Igual. Tudo igual. Tudo sempre o mesmo nada. Já estava rendendo-me à minha miopia, quando então reparei em algo que estava sempre brilhando para mim, mas que era ignorado desde que nasci.  Encantei-me.
Vidro na janela, no aparelho de TV, no espelho, no anel, na lâmpada, no aquário,... Vidro, vidro, vidro, vidro! O vidro é uma parede, um recipiente, um isolante acústico, uma bijuteria, um refletor de imagens... Cotidiano demais para ser valorizado. Útil demais para ser reparado. Percebi que sempre reluzente, o vidro todo o tempo se apresentava a mim, mas minha miopia, que é fotofobia, sempre o evitou.
Tentando me redimir da culpa pelo não-ver de tanto ver, tentei encontrar uma função especial para o vidro. Nesse momento, recordei-me de uma passagem do vídeo “Paisagens Urbanas”, em que Olgária Matos, professora de Filosofia, diz que o vidro cria a ilusão de acessibilidade por causa da proximidade com o objeto. Disse também que o vidro brinca com o interior e o exterior: o que está fora parece estar dentro e o que está dentro parece ser atingível. Considerei isso uma metáfora da subjetividade.
Ainda inconformada, comecei a pensar que o vidro não era notado porque, quando limpo, é transparente, não se faz ver. Foi então que me lembrei de um conto de Baudelaire, em que ele (eu-lírico) briga e expulsa um vidraceiro que “ousa andar em bairros pobres e não tem, sequer, vidros que façam ver o lado belo da vida”. Tinha que ser vidros coloridos, aqueles róseos, vermelhos, azuis... mecanismos que nos permitem colorir a dura realidade e garantem nossa subjetividade. De novo ela.
Percebi que além de míope eu era também surda e absurda. E ao pensar que eu era a versão feminina do "homem absurdo" de Camus, me lembrei de algo que ele disse: "pensar é reaprender a ver, dirigir a própria consciência, fazer de cada imagem um lugar privilegiado".
Pronto. O que tanto procurava já estava instaurada: a inquietação cética se tornou imperativa. Quantos objetos são não-vistos de tanto serem olhados? Quanto de sentido vemos nas coisas? Que coisas vemos no que sentimos? Quanto de nós, da condição humana, há nos objetos?... Contente com a angústia, tentei encontrar um método para fazê-la florescer sempre que tudo estiver igual. Descobri que não há outro meio: só a arte e a filosofia conseguem causar esse desconforto agradável.
A canção de Chico Buarque, a provocação de Otto Lara Rezende, o depoimento de Olgária Matos, o ódio despótico de Baudelaire e o ensaio de Camus me fizeram finalmente ver o que todos já haviam escrito e dito: a rotina de ir-e-vir nos narcotiza e abestalha.
Carmem Lúcia
Enviado por Carmem Lúcia em 10/10/2005
Reeditado em 11/10/2005
Código do texto: T58334
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Sobre a autora
Carmem Lúcia
São Paulo - São Paulo - Brasil
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