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Labuta - A saga diária


Acordou cedo, trocou de roupa e tomou café. Seis e quinze da manhã. O cérebro estava quase inerte. Ações quase automáticas. Então, abriu o portão, despediu-se da mãe, entrou no carro e pôs o motor para funcionar. Seis e meia e já estava a caminho da pequena empresa onde trabalhava.

Seu pensamento agora estava no jogo do Timão da noite anterior. Seu time havia perdido o clássico para o Tricolor e as piadas dos colegas já o irritavam prematuramente. Aumentou o som do carro e um rap engajado entrou em seu ouvido. Não entendia direito o recado que a letra irada e rimada tentava lhe passar, talvez pelo fato de ser branco e nunca ter sentido a dor do preconceito na própria pele.
 
O caminho era curto, poderia ser percorrido com uma bicicleta, mas o conforto do automóvel não o deixava perceber o prazer que um exercício matinal poderia oferecer-lhe. Afinal, se trabalhava tanto, tinha o direito de desfrutar das facilidades que o dinheiro trazia, não é mesmo? Era mais uma quinta-feira e enquanto estacionava o carro, pensava no que faria à noite. Como sempre, chegaria em casa, tomaria café e tiraria seu sagrado cochilo. Levantaria pronto para tomar um banho e, então, ir encontrar sua namorada.

Bateu seu cartão cinco minutos mais cedo, mas estava sem a menor vontade de começar a trabalhar. Aquela rotina diária de ser parte integrante de um torno realmente não era nada empolgante. Ainda sozinho, – era o único que possuía um carro e dessa forma, não raramente chegava antes que todos –refletia um pouco mais lucidamente sobre sua vida de pobre proletário – mesmo sem saber o significado de tal palavra – e sua triste sina.

Sentado em seu posto, quase pronto para iniciar a labuta, escuta a voz de alguns companheiros que acabam de chegar. Como imaginou, chegam sacaneando uns aos outros, e ele será o próximo. Por culpa daquele maldito goleiro frangueiro, agora é ele quem tem que agüentar as conseqüências. Fica realmente bravo por algum tempo, mas com a certeza de que no próximo jogo a história vai ser diferente.
 
O relógio já aponta sete e meia da manhã quando todos resolvem iniciar suas tarefas. Mais tranqüilo resolveu ligar o rádio para ajudar o tempo a passar mais depressa. Assim como sua vida diária, a estação sintonizada era sempre a mesma e a programação também.

Leonardo André
Enviado por Leonardo André em 10/10/2005
Reeditado em 04/11/2005
Código do texto: T58572
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Sobre o autor
Leonardo André
São Paulo - São Paulo - Brasil
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