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Pequenas guerrilhas urbanas

Fui como sempre ando indo. Tomei o 665, o S.Pena-Pavuna depois de comprar 8 paçoquitas que sempre penso em dividir com Homero...Sento saboreando o meu energético matutino já bem perto da porta de saída do ônibus. Pego um livro, um texto e quando vejo já cheguei no trabalho. Meu companheiro de viagem do banco de trás pegou o ônibus ao contrário...no movimentado Largo da Cancela...enquanto uma turma grande descia ele se esgueirava de marcha ré da calçada para se sentar com medo de ser visto no segundo degrau do ônibus e não ser "enxotado" pelo trocador. Parecia rezar para não ser denunciado por tentar exercer seu direito de ir e vir...Sentado no degrau de descida ficou imóvel, de costas, tentando não ser notado em seu medo, em sua miséria, em sua tristeza. Devia ter uns 18 anos...roupas sujas, olhos vermelhos de chorar (conheço a diferença), um saco plástico já meio rasgado com o que pareciam ser suas únicas roupas. Quieto ficou, no degrau sentado, com medo de mim...eu era a única que o via...me olhava as vezes furtivamente e eu fazia de conta que não via nada. Já seguro de que não seria denunciado na sua diuturna guerrilha de sobrevivente urbano, ônibus em movimento, deu o segundo salto. Num pulo, e no momento certo da curva, se atirou sentado e imóvel de novo no banco de trás. Imediatamente fingiu dormir. Parecia rezar para não ser percebido, testa crispada, tristeza estampada num rosto que fechava os olhos para não ver o que poderia lhe acontecer aí, para se esconder de possíveis olhares que o envergonhariam...como se pedisse a Deus para chegar ao destino sem sofrer algum tipo de violência ou reprovação. Já éramos dois com o peito doendo...ele de olhos fechados e eu tentando dizer ao menos com um gesto que era totalmente solidária ao que ele fazia com tanto medo, tristeza e vergonha. Tive vontade de gritar e dizer que eu faria o mesmo no dia seguinte em homenagem as suas artes de sobrevivência. Chegava a hora de saltar e só o que me restava fazer para ter algum contato com meu envergonhado e triste guerrilheiro era faze-lo abrir os olhos sem se assustar e dividir com ele as paçocas do Homero...Foi o que fiz rapida e sorrateiramente como ele me ensinou na sua entrada. Não me contive, já na calçada, em olhar de esquiva para o ônibus partindo do ponto...ainda consegui ver colado ao vidro de trás um breve e surpreso sorriso no rosto tão jovem, como que aliviado por ter sido entendido e aceito ao menos alí, naquele instantâneo de sua vida tão massacrada na mais tenra e criadora idade. Creio entender bem o que comemorava quando me acenou pensativo...a paçoquita era um mero detalhe em seu mundo repleto de sonhos tão cruelmente solapados segundo a segundo. O aceno já sem tanta vergonha estampada no rosto, um segundo de dúvida, aqui sonho eu, sobre uma vergonha que pressupõe sua, mas que é também minha e de toda uma nação que continua negando aos seus filhos, os seus mais fundamentais direitos.
De resto, e cá entre nós...o que poderia ser mais gostoso durante a longa viagem do 665 do que ir saboreando umas paçoquitas?
Quem sabe mais otimista e mais desconfiado...mas não de si...e sim do que irá lhe propor a vida no seu próximo  destino...entre a Av. Brasil e a Pavuna...
Aurea Maria da Rocha Pitta
Enviado por Aurea Maria da Rocha Pitta em 13/10/2005
Reeditado em 09/11/2010
Código do texto: T59443
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Aurea Maria da Rocha Pitta
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 65 anos
26 textos (7406 leituras)
1 áudios (305 audições)
4 e-livros (851 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 10/12/16 12:58)
Aurea Maria da Rocha Pitta