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meninas moças


      Aquele Julho de 1962 na casa de minha avó Iaia,quando meus pais pegaram seu fusca e foram fazer uma segunda lua de mel viajando pela costa do Brasil foi algo inesquecível e apaixonante em minha vida.Eu contava treze anos e saí correndo para a Iaia quando algo estranho apareceu em minha lingerie:-“Guria,tu ficaste mocinha!Vais poder ter bebes como tua mãe e eu!Vamos pegar uma cintinha da tua tia para usares o absorvente.Ivo!Nossa neta ficou moça.És menina moça agora”,dizia minha avó sorridente e entusiasmada.Quanto a mim,estufei de orgulho,mais ainda quando pude usar as cintas ligas da minha tia moça, aquela peça cheia de rendinhas e cor de rosa da cinderela.Pouco depois corri ao telefone para contar a novidade à minha amiga Graça, que ja usava calcinhas liga há alguns meses, e acompanhava minha expectativa e desejo de ter as “regras” ou o “incômodo”.Isto era prestígio para nós na época.
Entrei então para a confraria das meninas moças,as meninas que já haviam tido o incômodo .Deus!lembro com saudade até dos termos que eram usados na época e que já não escuto mais, aliás a delicadeza da sociedade daquele tempo para com as meninas se fazia presente no linguajar;meninas moças ao invés de adolescentes”as meninas que já podiam ter filhos,que já haviam tido o “incômodo”.O “incômodo ao invés de menstruação” era o sangramento mensal e agora creio que as mulheres usavam esta palavra porque,sim,sentiam se incomodadas e com medo de inoportunas gotas de sangue nos vestidos.Mas,se o incômodo não vinha;Oh,pânico e horror!
Já que eu havia subido de status,Graça me convidou para irmos ao cinema Vitória e fazer um lanche após.Havia sido inaugurada a primeira lanchonete das lojas Americanas na Rua da Praia e agora,meninas moças que éramos,podíamos nos dar esta liberdade e começar a exercer nossos direitos.O filme era do Alain Delon ,o homem mais bonito que já vi .e marcamos de nos encontrar em frente ao cinema .Quando me perguntou o que eu vestiria,disse lhe emocionada que ia com meu costume channel e saltinhos de salto além de maquilada, posto que Iaia consentiu em que passasse a me apresentar como uma menina moça,maquilada.
Foi apaixonante minha primeira arrumação de moça:usar base,rimmel, rouge e delineador,botar a cintinha a prender o absorvente,meias de nylon,saltinhos e,para culminar meu prazer o casaco de veludo tigre que minha tia espontaneamente me emprestou.O espelho me olhou encantado e meu avô não me conheceu quando eu desci as escadas de seu casarão, para logo em seguida dizer “vê bem o que vais fazer,volta às cinco horas e não encara os homens de jeito nenhum”!
Subi a rua Caju em direção ao ônibus rindo  e deliciada já que os vizinhos ,na janela a estas horas,não conheceram aquela moça alta que subia a  rua com um meio sorriso nos lábios , orgulho nos olhos e vestida com um casaco de tigre.
Em frente ao cinema eu e a Graça não nos falamos, sómente nos olhamos muito sérias,muito misteriosas e profundas,como a nos sussurrar que estávamos possuídas por nossas feminilidades,estávamos entrando no mundo das mulheres.Foi nosso momento eterno,um momento em que nossa carne se fez alma ou apenas sentimento.
Assistimos uma comédia deliciosa e após fomos à lanchonete das Americanas que estava cheia de namorados,senhoras e gente jovem.Pedimos o “chique” na época,seja um enorme sanduíche americano com batatinhas  acompanhado por um generoso Milk Shake .Guardávamos meninas gulosas dentro de nós.Às cinco horas cheguei em casa vitoriosa e alegre, e as matinês com direito à lanche depois ,multiplicaram se todos os dias no mês de Julho das novas moças que debutam no cinema,nas Americanas e pelas ruas  de Porto Alegre.Foi assim até o dia em que resolvemos,às escondidas,assistir um filme proibido para menores de dezoito.Tínhamos treze ,estávamos bastante maquiladas para enfrentarmos o porteiro e mortas de medo da nossa ousadia,mas entramos e fomos aceitas Olhávamos nos e ríamos baixinho assustadas e emocionadas com nossa ousadia, pelo que seria nosso eterno segredo :a curiosidade sexual,a descoberta do sexo.O que não esperávamos é que o filme,muito picante,com uma cena de sexo demorada e completa, fosse nos atingir em cheio,posto que nunca haviamos visto uma cena amorosa e sensual entre um homem e uma mulher.Estávamos mudas no momento da cena,estávamos excitadas e sentíamos um perigo eminente que,certamente,vinha da alma e,pela primeira vez também,sentimos nosso corpo responder à provocação,pois sentimos uma excitação descendo de nossas mentes e um aperto no ventre.Encaramos nos no cinema,perguntando uma à outra se estava sentindo também,meio assustadas,meio espantadas com nosso corpo de menina moça.Estávamos começando a descobrir o sexo,estávamos encantadas com nossa feminilidade mas igualmente temerosas Seria normal?
Nossos olhares à saída do cinema foram significativos,profundos e expressivos .A emoção foi tão intensa que mal cabia dentro de nós e resolvemos parar de sair aquele Julho.Havia sido muito,havia sido o bastante,sentimos nos em perigo e recuamos.A dose para mim fora excessiva, pois ao chegar em casa de Iaia despi a roupagem de moça; a menina que morava em mim  havia descoberto   sexo e  feminilidade naquele mês de Julho de 1963.Eu estava serena,e fui jogar cinco marias.
Ao voltar do Rio,minha mãe recebeu uma mulher.








Suzana da Cunha Heemann
Enviado por Suzana da Cunha Heemann em 04/06/2017
Código do texto: T6017861
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Suzana da Cunha Heemann
Fortaleza - Ceará - Brasil
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Suzana da Cunha Heemann