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Nem tudo que reluz é ouro...

Não me recordo de ter presenciado, em outra ocasião, meu pai rindo tão gostoso como naquele dia. Eu acabara de chegar do colégio quando ele veio falar comigo.

- Meu filho, vamos ter de colher o "material" novamente ("aquele material" que se leva pra examinar no laboratório, sabe?... agh!).

Disse isso e desandou a rir gostosamente, como eu nunca tinha visto.

- Não vejo graça nenhuma nisso, pai. O que foi que aconteceu? O "material" chegou ao laboratório com o prazo de validade vencido? (essa eu inventei agora, pois naquela época, nos tempos em que Raul Seixas estava no auge, 1973, não tinha essa de prazo de validade, não, e nem por isso morria-se mais que nos dias de hoje).

Ele não parava de rir e eu tive de esperar um pouco mais.

- Vou lhe contar o que aconteceu. Saí cedo de casa, depois de embrulhar a latinha e...

Uma pequena pausa esclarecedora: meu pai era extremamente metódico, fazia tudo com calma, sem pressa, e, na minha avaliação de menino de então, com zelo até exagerado, às vezes. Naqueles tempos, usava-se uma latinha redonda, tão pequena que era muito difícil realizar com pleno êxito a repugnante tarefa (sério risco de eventual transbordamento... valha-me Deus!). Depois da latinha devidamente fechada, ele fez o que sempre fazia nesses casos: um belo de um embrulho, com um pedaço providencial de papel (de presente) guardado para uma emergência qualquer. Feito o necessário aparte, voltemos ao ponto:

- ... tomei a direção do laboratório (que ficava a uns quinze minutos de casa, por caminhada), aproveitando a gostosa manhã de sol (talvez fosse primavera, temperatura amena, brisa gostosa, dia alegre, de céu azulzinho, disso eu me recordo).

- E depois? - perguntei-lhe, curiosidade crescente.

- No caminho, passei naquela banca de revistas para dar uma olhada nas novidades e...

Desculpem, mas outro aparte vem a calhar: além de calmo, ele era muito distraído, a ponto de cruzar com você numa rua qualquer e nem se dar conta disso. E, naquela ocasião, já estava aposentado, sem nenhuma pressa, portanto; de modo que os quinze minutos normais entre minha casa e o laboratório dobravam ou até triplicavam. Voltemos:

- ... enquanto olhava as manchetes, distraído, deixei o pequeno embrulho sobre o balcão. Depois de escolher a revista que queria fui ao caixa fazer o pagamento e, quase saindo da revistaria, lembrei-me da razão de minha ida ao centro da cidade. Quando retornei ao balcão, um ou dois minutos depois, vi que o pacotinho colorido havia desaparecido. Notei também que dois pivetes (meninos de rua) que lá estavam quando cheguei já não se encontravam mais no interior da banca de revistas. Foi então que me dei conta de que ao chegar, com aquele singelo embrulho de presente nas mãos, pude perceber que os dois garotos não tiravam o olho dele...

E complementou:

- Que lição para aqueles dois meninos, não, meu filho? Fico a imaginar a cara deles ao abrir o cobiçado "presente", ansiosos para ver a beleza da jóia que, para eles, certamente lá dentro haveria... Talvez tenham até disputado para ver qual dos dois abriria o precioso embrulho!

Agora, ríamos os dois, gostosamente, sem parar!...
TSRossi
Enviado por TSRossi em 18/10/2005
Reeditado em 17/03/2008
Código do texto: T60844
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
TSRossi
Porto Velho - Rondônia - Brasil, 58 anos
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