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O velho e a caixa de música

         "Sintam a música com o coração
          Deixem que ela lhe beije na alma
          E lhe arranque desta solidão!!!"

    Gritava o velho repetidas vezes pela rua calorenta e quente de meio dia. De vestimento todo verde, com uma careca respeitável, com uma barba digna de Machado de Assis, com alguns dentes ainda restando em sua boca ressecada, carregava com uma corrente uma caixa vermelha e misteriosa que andava com ajuda de quatro pneus pequenos improvisados de madeira. Da caixa saia uma música velha,  quase mal gravada, com chiados e pequenos pontos de interferência, como numa música antiga de rádio. Da música uma voz feminina e aguda ecoava pela própria música e caixa, e um violão a acompanhava em dedilhados de perfeita combinação:

           "Ah! Que desastre da vida
            ver indo embora
            a alma da pessoa querida.

            Porquê, há de morrer?
            Porquê, uma coisa menos pior
            do que a morte, por Deus não foi inventada?

            A coisa mais triste
            É te ter como pessoa viva no coração
            Mas te ver enterrada neste chão."

     E a música aí não acabava, pois continuava como se não tivesse fim. Ia o velho andando pela rua, carregando a caixa, pedindo a aproximação das pessoas:

            "Sintam a música com o coração
             Se entreguem à melodia
             Deixem que ela lhes beije na alma
             E lhe arranque desta solidão!"
           
      Mas ninguém se aproximava, seguravam as crianças com medo do velho louco que gritava. E só olhavam de longe, curiosas e ao mesmo tempo assustadas, se perguntando "O que será que tem naquela caixa?" E ninguém sabia responder e nem tinha coragem de procurar saber.
      E ia o velho embora, terminando a rua, como somente uma ilusão que mais ninguém enxergava, como parte do ar que agora se dissipava, foi sumindo das vistas e dos olhares possíveis às pessoas juntamente com a música que foi abaixando com a distância até não ser mais ouvida; tudo voltou aos barulhos cotidianos imperceptíveis aos ouvidos já acostumados dos homens; e o velho e sua caixa ali nunca mais apareceram. Certas pessoas por muito tempo para si mesmas ficaram a dizer "O que queria conosco aquele velho caduco e louco?" e para o resto da vida ficaram sem saber...
Calor do cão
Enviado por Calor do cão em 18/10/2005
Reeditado em 18/10/2005
Código do texto: T60905
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Sobre o autor
Calor do cão
Salvador - Bahia - Brasil, 28 anos
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