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Rei decapitado, rainha crucificada


Desde criança ouço meu pai dizer que a continuidade de nossa família é essencial. Guardo antigas imagens de papai sentado à mesa de jantar, vociferando para mim, e para meus irmãos, uma de suas mais célebres citações: “Meus filhos, é obrigação de vocês proliferar nossa raça para que a nossa história perpetue-se”.

Lembro que mamãe participava do discurso, falando sobre a beleza de gerar um ser que possibilite expressar o amor familiar: “Oh, o amor de pais para filhos, o único amor verdadeiro e eterno”.

Meu irmão foi o primeiro a usar, em prática, essas máximas da reprodução humana. Casou-se. Viveu um tempo com a esposa (a quem permitia um amor incontestável). Em uma época de decadência amorosa, quando o par viu-se frente à primeira crise, para salvar o casamento e o amor ambos decidiram ter um filho. Assim, minha cunhada deu à luz a uma cria angelical, com olhos claros, cabelos cacheados e tez rútila, um amor de criança.

Minha irmã, por compartilhar de toda essa ideologia pró-vida, também decidiu ter o seu filho. Durante anos batalhou na busca de um marido perfeito (falo em perfeição, pois o amor é perfeito). Um dia, já encontrado seu par amoroso, engravidou inesperadamente. Ela e seu esposo ficaram assustados, não sabiam o que fazer. Após alguns dias de perturbação, e a dúvida dolorosa de um possível aborto, depois de fazerem amor decidiram: “Sim, vamos ter esse filho”. E, assim, conceberam uma criança de olhos claros e cabelos cacheados, reflexo inerente do amor humano.

Bem, essas experiências refletem-se em mim diretamente, pois sou o filho mais novo e com a mesma idade em que meus irmãos decidiram louvar nosso belíssimo mundo com mais um espécime humano.

Tenho uma noiva. Minha condição financeira é estável. De certa forma, sou um ser amoroso. Amo algumas particularidades da vida e amo minha noiva. Sim, amo e expresso amor. Dou gorjetas e esmolas amorosas para as mais diversas entidades humanas, animais e naturais. Sou um amor de pessoa. Então, por essa minha habilidade, ou necessidade de produzir amor, criticam o fato de eu não permitir a este mundo cheio de delícias e prazeres um ser que se delicie e tenha prazeres, ou que me delicie e me dê prazeres.

Papai berra a plenos pulmões: “Meu filho, nossa raça será a evolução de todas as raças, você tem a obrigação de continuar o que nossos antepassados começaram”.

Mamãe, com sua domesticidade sutil, cita o valor essencial da vida: “Querido, uma pessoa só se torna humana quando dá vida a outro ser humano”.

E minha noiva, com sua alienação carismática, sussurra em meus ouvidos: “Amor, estou a fim de ter um filho contigo, não existiria prova maior de amor de sua parte”.

Sim, compreendo-os, o amor familiar, o axioma da maior organização não-burocrática permissível a todos. Por que não buscar algo tão belo e ainda por cima perpetuá-lo?  Por que não dar forma ao amor em um embrião único, que estaria sempre a meu lado até a minha morte? Por que não ter um filho?

Pobres mentes idiotizadas por valores despóticos e decadentes. Sim, há uma boa razão para eu não me dispor a trazer uma criança ao mundo. Aliás, não uma, mas inúmeras razões. Estranhamente, entre os meus, fui o único a chegar a uma desconcertante conclusão: dar ao mundo mais uma vida é compactuar com a morte de forma vil e egoísta.

Sim, vamos ser racionais, ou melhor, deixe-me racionalizar, não quero ser gratuito, o que me daria uma máscara de tolo disfarce.
Impõem-me gerar um filho que compartilharia de minha realidade. É isso?

Para início de conversa, eu tenho um problema com minha auto-estima. Reconheço que há falhas terríveis em minha personalidade, que foram criadas pela minha própria condição.

Desde sempre me foi permitido o dito “livre arbítrio”. Fiz escolhas ao longo de minha vida, que me dissociaram de certas castas e associaram-me a outras. Cultivo uma subcultura individual, que pode ser chamada de identidade ou singularidade.

O bem que faço e o mal que repudio representam minhas concepções de bem e mal. Minha moral e ética são a moral e a ética que escolhi. Obviamente, mesmo com essas estruturas de personalidade que associo à minha vontade, não posso negar o compartilhamento de inúmeros desejos e negações oriundos de minha família e da sociedade em que vivo. Eu relaciono diretamente esse dito “livre arbítrio” à minha herança genética e cultural, o que me torna um ser não-autônomo.

Bem, quanto a todas as escolhas que fiz voluntariamente, considero-as duvidosas. Cogito que minhas verdades e valores possam ser falsos ou imperfeitos. Acredito em minha imperfeição e, “principalmente”, acredito na imperfeição de toda gama de elementos herdados de meu berço social e familiar. E de forma alguma imporia a qualquer pessoa essas imperfeições, muito menos a um filho.

Eu não falo de imposição fascista e, sim, de imposição subliminar, imposição por osmose e o tipo mais eficaz de imposição, a amorosa.

As crianças endeusam os pais, não importando quem sejam, elas louvam a docilidade maternal e a força paterna. E se eu tivesse um filho, este seria alguém que endeusaria minhas condutas, alguém que refletiria em si a minha imagem, seria a minha extensão física e espiritual, mesmo que distorcida.
 
Todas as escolhas “independentes” desse filho seriam criadas e expressadas a partir de fórmulas prontas, em boa parte extraídas de minha personalidade. “A existência precede a essência”, dizia Sartre, mas a família é mediadora da formação desta existência. É irremediável: colocar uma criança no mundo é impor a ela, consciente ou inconscientemente, todos os resíduos paternos e maternos.

Além disso, os psicanalistas dizem que os traumas que irão reger a vida de uma pessoa são formados até, mais ou menos, os cinco anos de idade. Os traumas surgem de forma sensível e tornam-se indeléveis a partir de vícios familiares. As neuroses, as fobias, a sujeição ao rosto paterno, os dramas sexuais e a pulsão ao instinto de morte são os inúmeros bibelôs que eu daria, ou ajudaria a produzir, a esse suposto filho em seus primeiros anos de vida.

Sei que alguns perguntariam: “Mas o amor não supera todo esse negativismo? Uma criação bem preparada e bem cuidada não geraria um ser que expressasse apenas prazer a partir das belezas existentes da vida?”. Eu responderia: Sim, mas existe a possibilidade do erro, e, com tantos vícios que superam em força as virtudes, trazer uma criança ao mundo seria um tiro no escuro.
 
Imaginem essa fábula.
Um rei e uma rainha obrigam um príncipe a nascer para ser o herdeiro do trono (sim, obrigam, pois não foi perguntado ao príncipe se queria nascer para ser herdeiro do trono).

Quando o príncipe começa a apresentar seus primeiros sinais de percepção da realidade, o rei, com sua magnânima força e virilidade, e a rainha, com sua beleza helênica voluptuosa, apresentam-lhe diversas caixas, cada uma delas contendo um pequeno “bibelô”, entre eles: os traumas freudianos, o definhamento do corpo, o caos social, os valores pequeno-burgueses, o sofrimento existencial inerente ao homem, a morte e a crença metafísica.

O príncipe, por ser muito jovem, não tem a capacidade de discernir o significado desses inúmeros “bibelôs”. Ele apenas olha para a rainha bela e para rei o magnânimo e reconhece em ambos o amor, apaixonando-se, e passivamente aceita as caixas.

O príncipe cresce, os males das caixas o apoderam, ele usufrui com dor, e, ao mesmo tempo, é tomado por uma insana consciência. Com ódio, ele se volta contra aqueles que lhe deram todo esse terror. O rei é decapitado, a rainha é crucificada, e o príncipe torna-se rei.

Mas, mesmo com esse ato que lhe deveria dar salvação, ele continua atormentado. Então, em uma ação de extremo egoísmo, ele gera outro príncipe e lhe passa o trono e as inúmeras caixas amaldiçoadas. E, em um ciclo de dor e terror, o mal é proliferado, eternamente.
Diego de Carvalho
Enviado por Diego de Carvalho em 21/10/2005
Código do texto: T61761
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Sobre o autor
Diego de Carvalho
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil
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