Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

HABLA, PARLA, SPEAK, FALA PO!

Na segunda escala, em Caracas, rumo ao Caribe, minhas duas preocupações naquele momento: Vou chegar mesmo até o Caribe? Cadê a minha bagagem? O agente havia deixado bem claro:
- Não se preocupe com a bagagem.
(Claro, não era a dele! )
Embora ele tivesse razão, pois não havia motivo nenhum para drama, gostaria de me manter inteiramente tranqüila, então fui até o guichê de informações afim de me certificar de onde estaria “my luggage”(assim que mamãe me ensinou). Embora eu tenha cursado inglês durante 6 anos, cantado músicas internacionais durante 10, e assistido a filmes sem legendas para puro treino por 2 anos, eu não lembrava como dizia bagagem em inglês, mas de uma coisa eu tinha certeza, usar a palavra: “bag” não seria muito inteligente, já que esta tem o mesmo significado de “saco”, não de só de sacola, saco de saco, bagos, saco de homem mesmo. Mas graças à mama agora eu sabia, e empregaria a tal frase naquele exato momento, para aquela simpática mocinha de coque e muito, muito gel no cabelo.
- Please, I´d like to know about my luggage. Can you help me?
- Oh, sory! No ingles..
- Excuse me? (com uma certa indignação, claro)
- Espanõl..
Espera um pouco, eu estava doida? Ou eu realmente me encontrava num aeroporto internacional, onde pessoas, principalmente as que lá trabalham, DEVAM falar uma língua em comum, (no caso a universal)? Era impressão minha ou no guichê de informações de um aeroporto, trabalhava uma mané que não dominava nem o “I´m sorry” (com dois erres). Tudo bem, talvez ela ainda esteja insegura pra soltar a língua. Tentei a mocinha do guichê à frente, (com o mesmo penteado, GEL). Eu ainda mantinha meu bom humor, mas um sorriso falso.
- Please,,can you help me?
- ola! Espanõl!
- o que? Per – favore - io no parlo niente de espanõl – mi bagagem- mala – bag – bolsa – fuck!
(acho que a ultima palavra ela entendeu bem). Safada!
A hija del puta chamou o superior. Ufa! Até que enfim alguém pra falar minha língua! Ops..ou pelo menos o inglês – a universal.
- senõra, habla lá!
Não lembro se foi isso mesmo o que ele disse, mas ele apontou pro outro lado do aeroporto, para que eu me dirigisse até lá. Não entendi patavina do que estava acontecendo, mas fui até lá. Cheguei à conclusão de que tinha três alternativas: A – Isso era uma pegadinha à la brasileiríssima; B – alguém, mesmo que do outro lado do aeroporto, saberia falar o PORTUGUÊS (pra compensar); C – alguém queria colocar drogas na minha luggage (não seria má idéia, também pra compensar). Concluí, enquanto percorria os 312 km de distância dentro do aeroporto, com meu salto de 312 centímetros, que eu deveria ter estudado espanhol e não inglês, também deveria ter menos resistência aos filmes do Almodóvar. Cheguei ao destino: o guichê da Varig!! Ufa, que alivio! E foi assim que eu disse pro recepcionista:
- Oi moço que alívio! Empresa brasileira, funcionários brasileiros, conversas e informações em português!! Eeeeee!! Me ajuda pelo amor de Deus, eu preciso saber se minha bagagem está aqui, ou em outro avião, sabe, o agente disse que não haveria problemas, mas sabe como é né, eu quero garantir que minas cositas estão a salvo, não é mesmo Sr....
Rapidamente olhei para o crachá, acho simpático quando as pessoas se chamam pelo nome.
- senhor...Alejandro??
- sory senõra!
Arrrrrrr, não...
Eu tentei me entender com o latino semi-analfaburro com nome de cantor brega - latino - romântico. Ele, com o portuglenhol chutado dele, e eu com meu inglês primário, acompanhado de um belo show de mímica! E por fim, até que nos entendemos bem..
- A Varig piede excuses, su plane atrasa! 2 oras!
- ahahahahaha. (pelo amor de Deus, ele só podia estar brincando)
- más no se preocupe, para compensar-te, usted ira para VIP ROOM.
Hmm..o que quer que fosse aquilo, gostei muito da idéia. Até esqueci o lugar pra onde ia mandar o latino tomar. E então voltei à minha voz de finesse, e sem falar nenhum mísero palavrão. (Deus sabe o quanto eu precisava).
- Ok señor! Muchas gracias! Hasta la vista baby! (sim, foi isso mesmo que disse pra ele, afinal filmes americanos têm serventia).
Ao chegar na sala VIP, havia um telão de plasma, um buffet de frios, sucos à vontade, bebidas alcoólicas, sofás, e pessoas vips! Assim como eu, claro!
Me servi do buffet vip, queijo vip, presunto vip, bolachinhas vip. Por que eu não encontrei uma bela mortadela vip? Minha fome que não era nada vip, mas mesmo assim mantive a maldita classe, e pedi um suco de tomate. Não que eu gostasse, mas sei que é chique, e precisava dançar conforme a música. Mas sinceramente, não sei porque não me servi de uma bela dose de vodka, afinal teria virado um “Bloody Mary”, e ninguém sequer iria notar! Não me perdôo por isso!
E lá estava eu: na mesa vip da sala vip, com minha máquina digital vip que comprei no free shopp em Lima, lendo o manual vip, me fartando de quitutes vips, quando chegou uma família, 3 homens. VIPS. Um dos homens me olhava gentilmente, deveria ser pelas minhas olheiras. Ele me lembrava o Tom Hanks, tinha por volta dos 25 anos e usava uma jaqueta de fotógrafo. Ahh, esses latinos são folgados mesmo não!? Ele olhava incessantemente, eu hein! Perdeu seu traseiro (pra não baixar totalmente o nível aqui) na minha testa? Mas..pensando bem, o Tom Hanks é um pedaço de homem..Olhei com olhar vip. Ele retribuiu com olhar vip. Hmm, acho que vou provocar o latino folgado vip! Bastava me mostrar um pouco preocupada, homem adora se sentir útil, adora salvar uma mujer em apuros. Se eu conseguisse chorar então! Não resistiria! Mas não o choro dramático, mas aquele choro carente, de encher os olhos d’água, com um certo charme..um choro vip! Então, acompanhada da minha incansável mímica soltei a pérola (um colar de pérolas):
- Ola! Tudo bien? Per favore (acho que isso é italiano), Joe (eu) estoy necessitando una arruda (ajuda). Joe (eu de novo) necessito saber lo código de Aruba, ligacion telefônica, comprende? Yo no parlo niente (italiano de novo), no comprendo nadica (vai saber), estoy aqui (SHAKIRA!) solla, andarte em mio sofrimiento (luis miguel – la barca), no conosco señor (aquele baixinho do desenho do Pica-Pau, que tem um um bigode enorme e um chapéu engraçado).
O homem se mostrou gentil, se segurou pra não rir é claro, e respondeu:
- Desculpe, eu não sei que língua a senhorita está falando, mas se souber o português fluente, acho que posso te ajudar!
Hunfs!
Mariana Merigo
Enviado por Mariana Merigo em 22/08/2007
Código do texto: T619382

Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original (cite o nome do autor e o link para a obra original). Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre a autora
Mariana Merigo
São José dos Campos - São Paulo - Brasil, 40 anos
12 textos (1815 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 22/10/17 14:14)