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 VÔO JJ 3054

Sandra Mamede

 

Chorei sim, chorei com os que choraram a morte dos seus entes queridos, sofri sim, sofri com cada nome anunciado e a expressão de dor a  cada nome que era escutado. Compartilhei sim, compartilhei  da dor, da frustração, da esperança e por fim da desesperança , do desespero.

Quantas vidas!!! Agrupados num avião, ansiosos por verem seus familiares, a saudade apertando o peito, nos olhos um brilho da esperança de logo chegarem em  terra firme e serem abraçados, serem acariciados, contarem as novidades que traziam  dos lugares por onde passaram, trazerem notícias dos parentes distantes que ficaram com o peito cheio de saudade e os olhos marejados de lágrimas pela partida, pela volta  ao lar, a rotina da vida...

Em segundos tudo é destruído, tudo finda, tudo desaparece. Eles se foram de forma cruel e inaceitável sem sequer perceberem o que estava realmente acontecendo.

Para os que ficaram ...uma dor indescritível, coração dilacerado, não acreditavam  pelo que estavam passando. Num momento, a esperança  da alegria do reencontro...no outro a certeza do adeus, da despedida da morte iminente. Pais que não veriam mais os seus filhos, namorados que não mais abraçariam as suas amadas, amigos que não mais se falariam,  somente a dor misturada a uma indignação profunda do descaso com que nós  brasileiros estamos sendo tratados, estamos sendo enganados, estamos sendo humilhados.  Verbas sendo desviadas ao bel-prazer de políticos corruptos em causa própria, sem se importarem com a população, sem se preocuparem com o bem estar do povo brasileiro. Um povo pacífico por natureza, confiante por índole. Um povo que ultimamente só tem deveres a cumprir sem lhes restarem nenhum  direito. O direito de terem dignidade, de serem respeitados, de serem ouvidos. Só resta ao brasileiro o direito de não ter direito algum.

Mais uma investigação vai terminar em “pizza”, cada um protegendo a sua parte, um acusando ao outro e por fim para o bem de todos eles, para salvarem a sua ( utópica ) dignidade e a possível responsabilidade pelo que aconteceu, depois de meses de investigações, vão chegar a uma conclusão que de antemão já sabemos qual  será...falha humana. Torna-se muito mais fácil acusar quem não está mais aqui para defender-se, não levarão em consideração a dor dos familiares que além de terem perdido um ente querido, poderão passar por sérios constrangimentos de verem manchada a honra  de uma pessoa que não pode mais defender-se.

Há tanto tempo fala-se do aeroporto de Congonhas, das  suas péssimas condições, da sua falta de  segurança, entretanto, desde que esses problemas foram detectados nada foi feito...Tudo continua na mesma, a “burrocracia” impede que medidas urgentes sejam tomadas pois segundo “eles” torna-se necessário uma série de procedimentos para liberação de verbas para uma causa justa, urgente e necessária. Os processos rolam pelas gavetas de gabinete em gabinete sem que ninguém queira assumir a responsabilidade da liberação de verbas, afinal de contas essa verba pode ser revertida para os seus próprios bolsos. Para as campanhas, para os passeios, para os seus luxos  o dinheiro “rola” fácil, não é necessária nenhuma burocracia. Sonegam impostos, vivem às custas  do pouco dinheiro honesto e  sacrificado que o povo sua para ganhar... Aonde iremos parar meu Deus?!  Em quem poderemos confiar?! Quando os nossos representantes nos olharão como “gente”, como “humanos” com direito iguais aos deles,  pois se estão lá foi graças ao nosso voto de boa fé e confiança nas suas promessas. Até quando ficaremos cegos a tudo isso, acomodados às injustiças, nos conformando em somente “subviver”?! Pois  hoje, nesse país,  só nos resta o direito de não ter direito algum.

 

 

Sandra Mamede
Enviado por Sandra Mamede em 24/08/2007
Código do texto: T621846

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Sobre a autora
Sandra Mamede
Salvador - Bahia - Brasil, 65 anos
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1 e-livros (55 leituras)
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Sandra Mamede