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Amargo Eu

Eu não sou um homem. Não posso ser um homem quando eu sou eu. Meus cabelos descobriram um esconderijo; a minha pele envelhece com a mesma velocidade da água mineral deslizando em uma garrafa de plástico à minha boca. Você deve pensar que tenho prazer pelas leituras; enquanto você desperta em determinada hora, enquanto você faz questão de conservar os seus amigos, eu sou cego. Extremamente cego diante da vida! A íris do meu olhar é tão deserta, tão negra e egoísta que me deixa perdido dentro do meu próprio eu. Eu não respiro normalmente; às vezes, pego-me deitado na cama de um hospital, sobrevivendo, ou melhor, empurrando mais alguns minutos com a barriga, graças aos aparelhos. A vontade que eu tenho é de extrapolar, levantar daquela cama e garantir uma nova vida. Isso é impossível! Então, eu prefiro morrer. Morrer e doar minhas orelhas a um surdo, morrer e presentear um pobre e inexperiente com o meu rico e aguçado paladar, e pernoitar embaixo de qualquer ponte. Quero sentir a minha boca ressecada, quero afastar e expulsar agressivamente este eu. Desejando os meus ombros dilacerados para a dor ir pastar à companhia dos animais, eu vou me desligando do meu eu e, talvez, ligando-me ao que realmente importa. Honrando e idolatrando as minhas pernas já desconectadas do mundo real, para que eu não perceba o tamanho peso da ignorância, nem a quantidade ridícula de átomos em volta de algo desgraçado e que mentiria se denominasse de corpo. Eu, dentro do meu eu, não sou um homem. Eu sinceramente sou uma "coisa" sem rumo. Só serei um homem quando eu descobrir o poder de ser um ser humano acoplado neste homem. Um homem acoplado neste ser humano. Eu só serei um homem quando eu transformar o eu em nós, quando eu me unir a alguém. Enfim, quando eu me completar. Vou completar-me quando entrar em contato com esta íris; quando eu relacionar-me com esta pele; no momento em que estes forem os meus cabelos, esta passar a ser a minha boca, a minha saliva; quando este passar a ser o meu pensamento, a minha evolução. Isso tudo que agora está nas minhas mãos é a prova de que eu só sou homem quando, em mim, existe uma mulher. Só sou homem quando o eu transforma-se em nós. Quando nós somos este nós!
Nicole Pozza
Enviado por Nicole Pozza em 24/08/2007
Reeditado em 08/09/2007
Código do texto: T622030

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Sobre a autora
Nicole Pozza
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil
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Nicole Pozza