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Um caracol para brincar

 

A infância cercada por irmãos, pai, mãe, tios, primos, não impedia aquela sensação de isolamento. Sentia-me amada, no entanto, fazia parte de uma entressafra de crianças; sendo bem mais nova do que os outros filhos e primos, já não possuía a mesma graça, nem requeria os mesmos cuidados de minha irmã caçula, nessa época um bebê. Assim me sentia um tanto abandonada, sem companhia da minha idade para brincar ou agrados especiais. Por tudo isso a atenção que uma tia muito querida me dispensou naquela tarde se tornou tão especial.

Tia Yolanda morava em uma casa modesta construída - assim como as casas de seus quatro irmãos - num imenso terreno árido, sem árvores e de chão de terra batida. Cercado por muro bem alto e com a entrada fechada por enorme portão de madeira, que impedia a entrada de estranhos. Para avisar aos moradores que alguém queria entrar elaboraram uma engenhoca eficiente: puxava-se, pelo lado de fora, uma cordinha, passada por um buraco aberto na madeira e acionava-se um sino, dependurado numa haste. Ao ressoar do blén-blén metálico, muitas cabeças apareciam ao alto, verificando para quem era a visita, alguns acenavam, outros gritavam as boas vindas e, ao fundo, lá vinha o verdadeiro dono da visita para abrir o portão.

Uma tarde fui deixada lá, por algumas horas. Ainda era bem pequena, teria uns cinco anos, talvez. Entrei pela cozinha - a entrada mais usada naquela casa - cheia de animais domésticos engraçados, como uma tartaruga enorme, cujo casco era mensalmente, lavado e encerado e que detinha maior lustro do que qualquer utensílio usado naquele cômodo. Reparei, então que a casa e a cozinha não haviam sido limpas nem arrumadas naquele dia - e o relógio já marcava quase três horas da tarde. Aquilo era surpreendente, coisa impensável de acontecer lá em casa.

Minha tia me abraçou e sem olhar ao redor, calmamente, e com sorriso feliz, perguntou-me: “-Você sabe brincar de caracol?” Sem esperar resposta, segurou minha mão e saímos para o quintal vermelho, de terra seca. Com um pedaço de tijolo desenhou enorme caracol espiralado e cheio de poeira, com a casca de uma banana, ela mostrou como era a brincadeira.

Brincamos de caracol durante muito tempo, a cozinha e a casa esquecidos, sem importância. Brincar era a única coisa valiosa naquela tarde que guardo como uma das minhas preciosas lembranças de infância.

 Lamentavelmente, pensei poder brincar, também, com o tempo; não avaliei a velocidade usada por ele ao atravessar nossas vidas e assim perdi a oportunidade de partilhar com essa pessoa admirável, que também foi minha tia, a grata lembrança daquela tarde inesquecível.

                                                          

 

                                                                                  

 

célia regina marinangelo
Enviado por célia regina marinangelo em 25/08/2007
Código do texto: T622963

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Sobre a autora
célia regina marinangelo
São Paulo - São Paulo - Brasil
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