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O VENDEDOR DE CAMARÃO.

De SMELLO = Alberto Frederico.

Deus ao criar o mundo o fez à sua semelhança, criou o homem com dotes naturais de inteligência e perspicácia, capazes de ir ao encontro da felicidade que pudesse seguir de perto a vida, de forma destemida e resignação. Uns, por intuição ou indole natural, seguiram esses mandamentos dotados de dons monásticos, outros seguiram caminhos diferentes, impetuosos e destemidos.

As lições que conseguiram assimilar, identificaram suas vidas e as transferiram analogamente, lançando na terra a semente que pode causar o bem ou o mal.

Aquele simples ser humano tinha por princípio, que o fluxo da vida tomaria o caminho certo da felicidade e estaria sempre no paraiso.Esse objetivo não seria perseguido,nem conquistado, tornar-se-ia natural. A força da vida haveria de alça-la pelo uso do poder da mente, intuição imaginária de que todos seriam dotados, graças a força do Criador.

Obediente a essas premissas, trocar idéias com um homem simples, desprovido do artificialismo de conhecimentos e virtudes, tornam-se um relicário de saber e aprendizado, que pode ser contestado, mas jamais esquecidos. É o caso da conversa com o VENDEDOR DE CAMARÃO!

Ué, mudou de ramo de atividade. Não está vendendo mais camarão? Encareceu tanto assim? Sumiram do mar, tornaram escassos? Ou o transporte aumentou tanto que ficou impraticável a manutenção da mercadoria por preço razoável?

Quase que o senhor acertou todos os obstáculos. A complexidade entretanto é maior.Se o senhor estiver com tempo, conto todas as diculdades que enfrentei para dar continuidade aquela atividade, da qual era praticamente o único neste local.
Vou começar pela marcadoria e depois pausadamente comentarei os detalhes.

Na verdade, Zenóbio era o único na região. Zeloso, delicado, mantinha muito cuidado com a conservação do pequeno crustáceo em caixa de isopor; envolvia cada quilo em papel laminado e uma cesta enorme ficava sobre uma banca de madeira por ele armada. Sua freguesia constante nunca reclamara qualquer coisa, a não ser o preço, que hora subia e hora descia, e ele sempre estava a justificar.

O senhor sabe, duas eram as fontes procedentes da mercadoria, uma do Maranhão e outra de Santa Catarina. Eu mantinha um "contrato de fornecimento".

Engraçado Zenóbio, você tem estudos, como sabe usar determinados vocabulos com
tanta propriedade, estive a observá-lo nesse início da conversa: - complexidade, fontes  procedente, pausadamente, pequeno crustáceo, nantinha contrato de fornecimento.Tudo
causou-me admiração. Como aprendeu a se expressar dessa forma ?

Primeiro quase terminei o 2º gráu, leio tudo que aparece em minha casa, desde os livros  dos meus filhos, até jornais e revistas que compro ou me dão. Não continuei estudando
porque tive de enfrentar a vida. Constitui família e tinha que sustentà-la. Eu procedo assim, quando alguém fala uma palavra desconhecida, tomo nota e, logo ao chegar em
casa, vou a dicionário dos filhos saber a significação.

Os contratos foram firmados, não por escrito, mas verbalmentem, como era antigamente e se diz até hoje, "o fio do bigode" bastava para que os homens cumprissem seus
compromissos. Num e noutro lugar estive com os maiores exportadores da mercadoria. Os acordos foram fechados, a forma de fornecimento, a entrega às companhias aérea  todas 2ªs e 5ªs feiras, o pagamento adiantado do frete e em contra-partida o reembolso  imediato, até 24 horas após a chegada aqui.

Haviam fregueses que gostavam mais dos camarões de Santa Catarina, por serem mais
claros e avermelhados, outros preferiam os do Maranhão, embora escuros, porém mais
saborosos. Os grandes restaurantes, que também fornecia, gostavam do sul, diziam que
os pratos servidos tinham melhor aparência.

Começaram exatamente por aí as dificuldades.As chamadas exportações açambarcaram
a mercadoria. Os americanos chegaram nesses estados e compraram toda a produção 
a preço de dolares, impossibilitando os fornecedores manterem as entregas acertadas.
Havia semana que eu nada recebia, outra, apenas, uma vez. Tentei a compra de camarão criado em cativeiro, não teve a mesma aceitação, a freguesia não conhecia,
regeitavam, por outro lado,os restaurantes passaram a comprar diretamente das fazendas que mantinham os chamados "currais de camarão", onde eram criados.

Aí surgiu um problema ainda maior, o que os médicos chamaram de "colesterol", este
colesterol seria um desastre para a saúde dos homens e muito pior para minha pessoa.

Nesse intermediário impasse havia uma situação difícil de contonar, os inspetores 
sanitários, sempre estavam nas horas certas das chegadas dos aviões a impugnar tudo, coagindo, apreendendo as caixas de isopor lacradas, que conduziam para o depósito público. Aumentava, dessas diligências, o preço do camarão, não pela dádiva de 5 a 6 quilos do custáceos, mas pelo que cobravam afim de liberarem.

Os fornecedores de gelo aumentaram, barbaramente, o quilo da peça, em razão do aumento da água e luz. O camarão não pode permanecer na água clorada, esta tem que ser retirada de filtros potentes, de carvão, que são importados e o preço subiu demasiadamente. Bem-se-vê que os governantes querem aumentar a arrecadação dos impostos, mas nada planificam.  Deixam de estudar, previamente, as incidências, que influenciam nos acréscimos de outras mercadorias, derivando as majorações.

Eu,tenho de levar para casa todos os meses no mínimo R$2.500,00 para suportar a alimentação, colégio e roupa para os filhos. A alimentação que aparentemente é mais
fácil, é uma balela do governo, a tal da cesta básica não passa de um engodo, sai muito
mais cara do que se comprarmos separadas as mercadorias, de melhores qualidades.
Veja o Senhor: - o feijão não cozinha, gasta muito mais gás que o outro e de um quilo, depois de "catado" fica reduzido a 600 gramas; o arroz depois de cozido se torna
empapado, igual a  comida de japonês ou chinês, brasileiro não come; à farinha parece
que misturam areia para pesar mais e por aí vai.

A realidade da vida de hoje é diversa do passados, existe uma desmedida ambição. E a concorrência entre os membros da sociedade, pedura a idéia fixa de quem menor saber
é preterido por outra pessoa de maior conhecimento, ainda que não precise. Eu não posso deixar meus filhos estudando em colégio público, por absoluta falta de condições do ensino. Maus professores, desinteressados e ausências constantes decorrente de graves provocadas pelos sindicatos ou em busca de melhores salários. As duas  mocinhas, de 16 e 17 anos, já desejam se vestir melhor, não visando igualarem às colegas mais afortunadas e sim evitando se sentirem rebaixadas. Os dois rapazes, por praticarem esporte, aspiram equipamentos melhores, tênis e meias confortáveis, etc.
Tudo isso requer dinheiro e não poupo em sacrificar-me para atendê-los.

Não sou adepto da esquerda, ao contrário, acho que essa doutrina dividiu ainda mais o
mundo; afasta o homem do pensamento de Deus e designios por ele criado, mas o
princípio incluido na nossa Constituição que - TODOS SÃO IGUAIS PERANTE A LEI -
se compõe como letra morta ou ao menos não é seguido, nem obedecido pelo cidadão.

Deixei de ser vendedor de camarão, mudando para simples catador de papel e latinhas 
de alumínio, porque me dão mais condições de sustar minha família e dar aos que a 
integram meios mais condignos de subsistências. Não me abato, nem me sinto constrangido, ajo com elevação de pensamento, vou em busca da felicidade dos meus
dependentes, não vivo no paraiso, mas a semente que estou plantando, dá um exem-
plo de vida aos meus filhos, resplanderá futuramente, sobressaindo o seu brilho quando eles chegarem ao apogeu da vitória que terão.

Essa foi uma lição de vida ditada por um homem simples, filosofo e pensador, que dis-
pensava a compaixão, transpunhas os obstáculos com a força altruísta, amando o proximo, como a sí mesmo.


    
smello
Enviado por smello em 29/08/2007
Reeditado em 10/12/2009
Código do texto: T629543

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Sobre o autor
smello
Brasília - Distrito Federal - Brasil, 92 anos
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