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A pátria em nossas mãos

A Pátria em nossas mãos

“Nenhum sinal de morte deve prevalecer sobre corpos vivos”
Frei Beto
A noite prometia muito riso, pouco siso. O grupo era o mesmo, apesar das cabeças embranquecidas, das barrigas protuberantes, dos quilos a mais: esperança e alegria legítimas. Afinal, juntos, mais uma vez.
A lua cheia não negligenciou o compromisso de participar fulgurante do décor do bar de teto semi-aberto. Nem a iluminação especial de prédio tombado fugiu da torre da igreja,  delineada logo abaixo do satélite do amor. Conspiração de fadas para o encontro de românticos, um tanto utópicos, ora em vias de realizar um pouco do grande sonho.
        Animava-os a certeza de que haviam de descontar os anos de divisão imposta a um punhado de idealistas, que viram desmoronar, um a um, o objetivo comum de obter condições de vida melhor para os desprivilegiados do país. Tinham pelejado, fortes na união de propósitos, para construir, em pedra medieval, os castelos inquebrantáveis da igualdade e da fraternidade. E, num abrir mais atento de olhos, a verdade: a pedra não passara de tijolo velho, marretado pelos donos do abandono, da corrupção e da incompetência.
É fato que, naquela reunião festiva, havia ausentes: por doença ou mesmo morte. Mas,  "c´est la vie": causas naturais para a gente na faixa  de idade dos sessenta ou quase. Não maculariam com lamúrias o instante único. O ministro que assumia era a amálgama perfeita das idéias e ideais de todos os presentes - um punhado de desbravadores das intrincadas questões sociais brasileiras, estudiosos de Marx, Althusser, Gramsci e tantos outros, perdidos na escuridão do capitalismo neoliberal mais voraz.
As mulheres porventura estranhas ao contexto de homenagem, por pertença a outras áreas de trabalho, rejubilavam-se solidárias, companheiras, na mesma disposição de ânimo festivo. Uma das descontextualizadas, cadeira vazia a seu lado, parecia meio desconcertada, quando calhou sentar-se, um homem de meia-idade, de feições logo identificadas por conta da televisão, nas poucas vezes em que aparecera.
       “Simpático. Parece inteligente”, pensou, animada para a conversa, mostrando-o ao marido. Reflexões e comentários desenrolados de parte a parte, os convivas, ligados pela ideologia similar, puxaram variados temas políticos, com início fatal na corrupção, escancarada recentemente ao público pelas denúncias e CPIs. Desde logo, concordavam em um ponto: a quase amnésia propositada dos acusadores, temerosos de outros carnavais de benesses por eles recebidas, habilmente camufladas.
        Em diferentes mesas, engajados no mesmo bloco quase caranavalesco trocavam-se aquiescências, sorrisos de cumplicidade, entre goles de caipirinha e vinho tinto chileno ou argentino, sem nacionalismos de vinhedos. Em várias pontos do bar, conversas e brincadeiras próprias da gente que gosta de se encontrar. Sorriam, gargalhavam, tentavam  movimentos discretos de corpo, balanços dos ombros, ao ritmo da música ao vivo. Pura alegria. Apesar de  defasados no tempo, adaptavam-se ao atordoante conjunto roqueiro, que os obrigava a  colocar a fala no pique da voz. Ninguém pensava empanar a euforia, por medo à rouquidão certa do amanhã.
       - Brindemos os “dinossauros das políticas sociais”, gritavam contentes com o apelido de si próprios.
        Enfim, o ministro! Ecce homo! Entrada lenta, delongada por abraços fortes, cumprimentos efusivos e sinceros. Sem bajulação ou interesses de cargos. O bar girava em torno do político, alçado à glória e, sobretudo,  à responsabilidade.
        A lua branca e cheia, no céu abençoado do outono carioca, sem se perturbar com o som hiperbólico da banda de rock brasileiro, mantinha-se firme no cenário elaborado a esmero, pela natureza, mais que pelos donos do bar.
        Despedidas altas horas da madrugada:  mais abraços, beijos, sorrisos afogueados. Que importava o cansaço, a ressaca da noite insone! Naqueles momentos fotografados para sempre, valiam os planos retomados com vigor de debutantes. Por mínimo espaço de tempo, a pátria estava salva.
        Em casa, ainda entre risos e torpor, a notícia à espreita, em rádio matinal: Brasília, urgente! Ministro cai, por imposição dos aliados de campanha do Presidente.

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Maria Lindgren
Enviado por Maria Lindgren em 24/10/2005
Código do texto: T63083
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Sobre a autora
Maria Lindgren
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil
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