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O P e o pé da praia

Duas mãos e ele respira. Quatros mãos e ela suspira. Barbante quilométrico e transparente; ninguém o vê, você não vê. Pele de papel, sensação de fraqueza, leve que só a beleza a deixa cantar. Voz de Roberto Carlos, dialeto dos índios. É calorosa; ela vai, ela volta. Não ser vitoriosa em uma estrada com cordões inimigos. Você a vê perigosa, saudosa e indeterminada. E volto às mãos: ardentes, machucadas. Muito mais de dois quilômetros rodados em poucos segundos. Em um suspiro jogando com outro.
Luz solar que chega sozinha, que brinca com a linha. Às vezes, tem cor de sangue, sangrando nas vistas do menino. Pipa que balança em contraste à dança elaborada pelas ondas do mar. Praia de Copacabana lotada: plantação de algodão deixou de ser colônia. Colônia que cheira, colônia que limpa, transformando o rosto do menino em um pedaço de tesouro cor-de-rosa. Milhares deles: carroça de Reginaldo, que trabalha desesperado para o sustento dos pés do menino. Dos pés do menino João, que é primo dos pés da menina, que é sobrinha dos pés da mulher. Da escandalosa mulher que lê esta crônica ao encostar os pés na areia. Areia morta, areia velha. Ao molhar os pés na água que afunda conchas, banha e lava as louças de quem sabe gritar. Gritam de dor os pés descoordenados de Jandira. Pés estes que a chamam para admirar o algodão-doce de Reginaldo e a pipa que chia de tanto voar.
Recebe-se a visita, várias visitas de estrangeiros pés. Pés australianos, pés canadenses. Até que enfim: pés brasileiros; o velho padeiro avisa: "- Lá vem o gaúcho com o seu chimarrão!" Homem de posição, de andar estruturado, talvez de vida bandida. Alguns pés desesperados quando nuvens decidem expulsar, esvaziar o suor provocado pela pipa. Pipa que pula, pipa que resolve voltar. Pés descalços, que partem em direção a um abrigo. Pés quentes que, na areia, voltam a pisar. Luneta aquela da tia da farmácia que entrega o batalhão. Na pura diversão. Os pés aqueles que invadem e entregam a praia para a multidão. Pés que contaminam a praia já contaminada.
Nicole Pozza
Enviado por Nicole Pozza em 31/08/2007
Reeditado em 31/08/2007
Código do texto: T632776

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Sobre a autora
Nicole Pozza
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil
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Nicole Pozza