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Deixado para morrer

Até recentemente, quando os pescadores que sobreviveram nove meses à deriva em um minúsculo barquinho de pesca que ficou sem combustível na costa do México, culminando com o resgate dos sobreviventes quase na Austrália, o recorde de Poon Lim de sobrevivência no mar ainda não havia sido quebrado.

Poon Lim nasceu em 1917 na ilha de Hainan na China. Com 25 anos de idade, trabalhava como marinheiro durante a Segunda Guerra Mundial. O ano era 1942. Poon Lim estava num navio mercante inglês chamado SS Ben Lomond, que havia partido da Cidade do Cabo a caminho da Guiana Holandesa (Suriname).

Entretanto, o navio não chegou ao seu destino. No dia 23 de novembro, um submarino alemão U-boat interceptou e torpedeou o navio em que Poon Lim estava. Era noite. Fumaça e fogo por todos os lados. A estrutura do navio estalava. Da sua minúscula cama, Poon Lim pulou. sabendo que aquele seria um dia trágico.

Poon Lim estava certo. Sem pensar, correu pelos corredores enfumaçados. Ele podia ouvir o grito dos seus amigos, e o som do metal retorcendo. A água entrava com tremenda velocidade no casco, inundando vários compartimentos. Poon Lim chegou até à caixa que continha os salva-vidas. Só teve tempo de agarrar um salva-vidas.

Saltou no mar em meio à escuridão, antes da água gelada atingir as caldeiras e o navio explodir.

Poon Lim ficou na água por algum tempo, tentando nadar para longe do navio, pois ele instintivamente sabia que o enorme SS Ben Lomond o puxaria para o fundo tão logo fizesse seu mergulho derradeiro em direção às escuras profundezas do Atlântico.

Do navio, saiu uma pequena parte da tripulação que conseguiu correr a tempo e saltar em um bote salva-vidas. Este bote que estava atrás do navio, do outro lado de onde Poon Lim havia saltado, foi rapidamente encontrado pelo submarino. Os marinheiros foram levados como prisioneiros de guerra.

Menos Poon Lim. Escondido pela cauda do navio que agora descia lentamente para o mar, Poon Lim era o último homem vivo no mar. Deixado para morrer.

Quando finalmente o navio afundou, Poon Lim estava sozinho na escuridão do Atlântico. Ele apenas ouvia o vento e nada mais. Nenhum grito de socorro. Nada. Apenas uma enorme área de bolhas pipocavam onde antes estava um enorme navio.
Ele ficou ali boiando agarrado a um precário salva-vidas durante algumas horas, mas quando as primeiras luzes da alvorada surgiram, Poon Lim viu um ponto branco no horizonte. Era o pequeno bote em que seus companheiros haviam sido capturados.
Poon Lim nadou como nunca havia nadado antes. Nadou durante muito tempo, num esforço incrível para chegar perto do pequeno bote, que a correnteza levava para cada vez mais longe.
Horas depois, exausto, Poon Lim chegou ao pequeno bote salva-vidas de 3m X 3m. Com um certo esforço, ele jogou-se como pôde para dentro do bote. Desmaiou.

Quando o forte sol bateu em seu rosto, Poon Lim despertou. Levantou-se no bote para olhar ao redor. Só havia água. O mar azul infinito estava ao seu redor para onde quer que olhasse.
Poon Lim sentiu-se feliz de estar vivo.

Começou a olhar no bote para procurar alguma coisa útil. De fato, no bote, havia um alçapão que dava para um compartimento com provisões de emergência. Ali estavam oito latas de biscoito, um barril de água, chocolate, alguns torrões de açúcar, uns poucos sinalizadores e uma lanterna. Não havia sinal de remos ou velas, o que fez com que a embarcação ficasse à deriva.

Poon Lim passou dias e noites tentando encontrar algum sinal de vida. Um navio ou avião que o salvasse, mas o seu esforço se revelou em vão. Uma noite, um avião passou, se destacando contra o céu estrelado. Poon Lim rapidamente acionou o sinalizador, disparando para o céu. Um ponto brilhante iluminou a escuridão do mar. Mas em seguida caiu e se apagou. O piloto do avião nem sequer deve ter visto.

Novamente sozinho na escuridão da noite, Poon Lim dormiu com a cara na tábua de madeira.

O tempo foi passando, dia após dia. Poon Lim sentia que as suas chances de ser resgatado com vida diminuíam. A água começava a escassear, o biscoito já acabava e não haviam mais sinalizadores. Poon Lim estava só.

Quando o biscoito enfim acabou, Poon Lim percebeu que teria de descobrir uma outra forma de se alimentar. Mas não havia nada além das parcas provisões que ele encontrou no bote. E a fome já começava a apertar.

No fim daquele dia, Poon Lim estava sentado no bote, olhando para o horizonte como sempre fazia. Seu olhar perdido voltava-se para lembranças de sua vida. Seu passado , sua infância. As namoradas ... Uma lona!

Poon Lim levantou. Estava vendo mesmo uma lona boiar a uns vinte e poucos metros do barco. Era uma lona naval. Devia ser uma lona do próprio navio que afundou. Sem pestanejar, Lim jogou-se na água e nadou o mais rápido que pôde até a lona.

Agarrou-se a ela. Era uma lona grande. Tentou nadar com ela de volta para o bote. Com certo esforço, conseguiu.

Com a enorme sorte do universo a abençoá-lo, Poon Lim usou a lona para improvisar uma pequena barraca no bote. Assim, conseguia proteger-se do sol. Mas sorte mesmo foi descobrir que havia amarrada numa das pontas da lona uma corda. Uma corda arrebentada, mas era uma corda.
Naquela situação, Poon Lim não podia reclamar.

Durante a noite, Poon Lim amarrava a corda em seu pulso para que, caso caísse do bote numa tempestade, pudesse voltar à embarcação.
Os dias continuaram a passar martiriosos, quando no auge da fome, Poon Lim resolveu pescar um peixe. Sem isca, sem linha, sem anzol.

A lanterna, a essa altura já sem função - pois não mais acendia - tornou-se um trunfo. Poon Lim, no melhor estilo Mc Gullyver, desmontou a lanterna, pegou a molinha que impelia as baterias e com ela fez um anzolzinho tosco. Com a corda do navio, ele arrancou com cuidado um fiapinho. Desenrolou o fiapinho e foi emendando vários destes até obter uma linha, onde amarrou o anzol.

Mas não havia nenhuma isca.
Então Poon Lim pulou na água e nadou em volta do bote em busca de alguma coisa, uma alga... Não achou nada além de uma minúscula craca colada no bote.
Poon Lim arrancou a craca do bote usando os pedaços da lanterna.
Naquela gosminha verde minúscula ele confiou sua vida. Ele TINHA que conseguir pescar um peixe com ela.

Depois de algum tempo lançando a linha na água, Poon Lim sentiu um puxão. Ele havia fisgado seu primeiro peixe !
Feliz, o chinês recolheu a linha com cuidado para que ela não arrebentasse.
Ali estava uma pequena sardinha.
Com ela, Poon Lim matou sua fome. Mas deixou alguns pedaços e vísceras para pescar outro peixe.

E assim os dias se passaram. A lona dava cobertura contra o sol inclemente durante o dia e serviu muitas vezes para que o chinês recolhesse a água da chuva que usou para beber quando a água do galão acabou.

Por sorte, os peixes começaram a responder bem às tripas das sardinhas. E a grande sorte de Lim aconteceu quando um cardume enorme de peixes começou a passar acompanhando o bote. A pescaria ficara bem mais fácil, ao ponto de Poon Lim ter no bote mais peixes do que era capaz de comer.
Começou a colocar os peixes para secar ao sol, para momentos de fome ou escassez futura.

Lim dividiu o bote em áreas. Num cantinho, ele armazenava tripas e vísceras dos peixes para pescar. No outro, os peixes secavam ao sol e no outro ele "morava".
O problema foi que as tripas começaram a exalar um enorme mal-cheiro. O cheiro foi piorando cada vez mais ao ponto em que Poon Lim não aguentou mais e jogou boa parte do sangue e vísceras no mar.

O que pareceu a princípio uma boa idéia, revelou-se uma enorme estupidez.
O barco foi cercado por dezenas de tubarões. Os tubarões ficaram em volta do bote vários dias, e assim o peixe seco acabou. Poon Lim voltou à estaca zero na alimentação.
Se tentava pescar algum peixe, ao puxá-lo para o bote os tubarões o comiam. O medo de cair do bote aumentou sensívelmente também.

A fome voltou a assombrar o bravo chinês.

Lim não se abalou. Ficou durante um bom tempo molhando e sacudindo uma das tábuas que improvisavam um dos bancos do bote para retirar dali o prego que prendia a tábua na estrutura. Era um prego já enferrujado e torto, mas novamente, depositando toda a sua confiança em seus parcos recursos, usando a própria tábua arrancada como martelo, Lim converteu o prego num novo e mais forte anzol.

Arrancando da corda mais e mais fios, trançou-os formando uma pequena - porém forte- cordinha, adequada para um anzol maior.

Só lhe restou uma última cabeça de peixe seco. Prendeu-a fortemente no prego e jogou no mar. Em menos de um minuto, um puxão muito forte aconteceu. Poon Lim pegava seu primeiro cação. Ao tirar o bicho do mar, ele se sacudiu como louco tentando morder tudo que estivesse à sua frente. Poon Lim ficou a pular com o bicho no bote. Mas ele deu cabo do tubarão quando meteu-lhe uma tábua em cima com toda vontade. Matou o peixe a pauladas. Ele conseguiu abrir o tubarão usando a tampa da lata de biscoito, que dobrada (novamente no estilo Mc Gullyver) virou uma afiada faca.
Por alguns dias, Lim se fartou comendo carne de tubarão. Passou a usar as latas para armazenar as tripas.

Numa noite, Poon Lim foi surpreendido por uma enorme tempestade Atlântica, que acabou estragando a sua pouca água e comida. O vento em rajadas cada vez mais fortes quase arrrancou-lhe a lona do bote. Lim agarrou-se fortemente ao bote com medo de morrer.

Quando a tormenta finalmente passou, ele estava vivo. O bote quase destruído, cheio de água, mas ainda boiava e não havia mais nenhum peixe.
Ele começou a desidratar ao ficar varios dias sem beber um só gole de água.
Então Lim improvisou com a tábua e a lona uma cabana para proteger-se do sol. Como só haviam restado algumas tripas de cação dentro de uma das latas, Poon Lim jogou-as sobre a lona.

Para sua surpresa, desceu do céu um albatroz.
Com uma sede miserável, Poon Lim usou a corda para fabricar uma armadilha. Jogou mais alguns pedaços - os últimos do tubarão - e ficou esperando escondido sob a lona.
O albatroz voltou a pousar sobre a armadilha.
Com um puxão, Lim prendeu numa arapuca a perna do albatroz, que morreu a dentadas.

O Chinês bebeu o sangue do albatroz, que estava muito, muito doce.

Algum tempo depois, voltou a chover e Lim recobrou a sua cota de água doce.
Um dia, Poon Lim acordou com um apito fortíssimo. Achando estar maluco, Lim viu-se diante de um gigantesco cargueiro.

Feliz, achava que estava salvo, mas o cargueiro americano passou direto. Ele sabia que tinha sido visto, mas não o resgataram porque era chinês.
Lim quase desesperou-se ao ver o cargueiro, sua última oportunidade de salvar-se, sumir no horizonte.

Mais alguns dias de solidão, uns aviões, também americanos, passaram voando bem baixo. Deram duas voltas em torno do bote. Lim acenava e gritava o quanto podia.
Feliz, ele viu uma bóia de sinalização ser lançada de um dos aviões, que após a terceira volta, foram embora.

Lim ainda tentou remar com a tábua e com as mãos o bote para a bóia, mas ela havia sido arrastada pela correnteza para bem longe do mesmo. O esforço era inútil.
O tempo passou e uma tempestade naquela noite o afastou de vez da bóia de salvação.

No início, Lim contava os dias amarrando pequenos nós numa das cordinhas. Mas depois, decidiu que era mais prático contar o tempo através das luas cheias ao invés de dias.

Em 5 de abril de 1943 Poon Lim avistou a costa. Três pescadores brasileiros encontraram o bote de Lim no mar, perto de Belém. Mas os pescadores eram tão pobres que tiveram que ficar com o náufrago chinês por alguns dias no mar, pois só poderiam voltar para terra com peixes.

Lim voltou com eles para o Brasil.
Durante o tempo em que sobreviveu ao naufrágio e à fome, 133 dias, Lim perdeu 10Kg mas ainda andava sem ajuda e estava forte quando foi encontrado. Ele ficou duas semanas em um hospital do Brasil até que o consulado britânico conseguiu que o mesmo retornasse à Inglaterra.

Posteriormente, Lim soube que apenas 11 dos 55 tripulates do seu navio sobreviveram.
O rei George VI condecorou-o com a Medalha do Império Britânico e a marinha britânica incorporou sua aventura nos manuais e técnicas de sobrevivência. Após a guerra, Poon Lim resolveu imigrar para os Estados Unidos mas a cota para chineses havia sido esgotada. Porém, devido à sua fama de sobrevivente, os americanos lhe deram uma colher de chá e ele conseguiu a cidadania do Tio Sam.

Lim entrou para o Guiness Book of Records por ser o humano com mais tempo à deriva no mar.

Poon Lim teve vários filhos e netos e só morreu septuagenário.

Sua frase ficou célebre: "Espero que ninguém tenha que quebrar este recorde".

Extraido e adaptado de :
http://mundogump.blogspot.com/
Humberto DF
Enviado por Humberto DF em 04/09/2007
Reeditado em 20/10/2007
Código do texto: T638640
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Humberto DF
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