Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

Falta de Memória

É incrível a falta de memória de algumas pessoas. Algumas esquecem chaves, outras compromissos, outros o nome da namorada ou até pior: a data comemorativa da primeira vez que ele deu a ela um buballo sabor morango! Já o que vos tecla, tem uma terrível mania (mania mesmo, pois nunca vi ninguém ser pior) de esquecimento também: esqueço PESSOAS.

Isso mesmo, pessoas! E não estou falando de casos como a trilogia do “esqueceram de mim”. Falo de algo muito mais embaraçoso do que deixar o pequeno “Macáuli Cáukin” só, aprontando em casa. Falo de encontrar alguém que não lembro da existência!

Como sou desligado por natureza e minha mania de vereador não permite que diga que simplesmente NÂO LEMBRO daquela pessoa, passo por momentos extremamente constrangedores e dignos de Oscar de cara-de-pau. Não sei onde foi que li que ensinavam que o melhor a fazer quando está acontecendo algo dessa natureza com você, é encurtar a conversa e dizer que está apressado. No entanto, outro defeito meu é a curiosidade. Quem me conhece sabe.

Outro dia desses estava andando na cidade atrás de não-sei-o-quê-lá (esqueci o que estava fazendo) quando, na iminência de atravessar a rua, fui abordado por uma figura estranha de meu conhecimento. E como era estranho mesmo aquele ser!
Usava um coturno roxo, cabelo verde (acho que por falta de banho, pois também exalava algo estranho), bolsa da “Hello Kitty” e demais apetrechos que me fogem da memória agora (o tal do esquecimento, lembram?)

- Thiago? Mennnnntiraaaaaa!!! (Tom de surpresa) Há quanto tempo rapaz...

Na verdade, acho que o tempo era tão grande, que fez-me tira-la de minhas lembranças.

- Oiiiii! Como você está?! Quanto tempo mesmo, né? – E enquanto respondia da forma mais falsa possível, tentei resgatar em minhas gavetas da memória quem poderia ser aquela menina de visual tão exclusivo. - “Hummmm, pela forma que ela falou comigo, deve me conhecer há séculos! Ai, ai, ai. Preciso parar de beber!”

- Pois é, garoto! Como você mudou, heim? Ta um homão! Risos...
- É, né? É a tendência, sabe? Você nasce, cresce.. E por aí vai... – Nesse mesmo momento tive um breve relampejo de inteligência e resolvi perguntar por alguém que tivéssemos em comum – Mas me fala, cadê o pessoal? Tens visto alguém?

Acho que equivoquei-me nessa afirmativa sobre a minha “inteligência”, pois a resposta dela só me valeu mais uma rodada de confusões mentais:

- Depende. Você está falando de quem?

Ai! Essa foi dura... Pensa, Thiago, pensa!

- Ahhh.. Qualquer pessoa, pô! Aquele magrinho que a gente pregava maior peça nele (toda turma tem um magrinho que todo mundo zoa) como é o nome dele mesmo?

- O Claudinho? – (ufa, agora você tem um nome para trabalhar!) – Uma pena, ele faleceu tem uns 2 anos... Nem sabia que você o conhecia.

- Meu Deus! O Claudinho? Ele faleceu? Nóssinhora! Como foi que aconteceu isso?

E enquanto ela me relatava o acidente, feio demais até para ser colocado aqui, eu pensava? “Mas... Quem era o Claudinho? De onde?”
 
Estava chegando a conclusão de que, enquanto tentava resgatar a memória de uma velha amizade, tinha acabado de enterrar um outro amigo que sequer lembrava dele. Como eu sou desnaturado! Ele deveria estar agonizando nos seus últimos momentos e pensando que os verdadeiros amigos estavam ao lado dele, e eu não estava! Droga de sentimento de culpa. No entanto, não podia ficar de luto por muito tempo, afinal, ainda faltava lembrar quem era aquela menina do cabelo da cor da Amazônia.

- ... e foi assim que aconteceu tudo! Uma pena, né? Mas já tem tempo.. Está superado. Mas me fala, como anda a tua mãe, Tia Carla, e tua irmãzinha? A Larissa, né? Ela deve estar enorme!

Opa!!! O nome de minha mãe é Suzana e, desde que eu saiba, meu irmão não curte muito vestir saias e usar codinomes para sair as ruas, ou seja, ELA TAMBÉM NÂO ME CONHECIA! Devia estar confundindo com algum outro Thiago! Danado de nome comum. Mas não podia simplesmente desmenti-la. Agora já tinha me comprometido com a história da pobre “garota papagaio” (parecia muito!). E agora? Como é que eu faria para me sair dessa sem comprometer a felicidade da menina que já tinha perdido um amigo, e agora ia perder outro que mal tinha encontrado? Foi então que lembrei do conselho que li não sei onde (problema de memória é terrível).

- Elas estão ótimas...  EIta! Meu ônibus. Demora muito pra passar outro. Olha, foi um enorme prazer te rever, mas estou muito atrasado mesmo e cheio de compromissos. Manda um abraço pra todo mundo e diz que estou com saudades, viu? Você continua linda! Até breve. Beijos!

- Tchau, Thiago! Prazer enorme te rever! Vamos marcar alguma coisa depois, viu?
- Pódexa! Beijos.
- Tchau!

Ufa! Tinha conseguido finalmente me livrar daquele pepino em que tinha me metido por pura falta de memória! Agora só faltava saber em que ônibus eu tinha entrado e onde é que eu tinha deixado o bendito do meu carro!

 
Thiago di Freitas
Enviado por Thiago di Freitas em 04/09/2007
Reeditado em 04/09/2007
Código do texto: T638850

Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original (Cite nome do autor e link para obra original). Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre o autor
Thiago di Freitas
Recife - Pernambuco - Brasil
15 textos (3222 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 23/10/17 17:12)
Thiago di Freitas