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UMA RUA CHAMADA JANDAIA

Ficava em São Paulo, no Bairro da Bela Vista, no centro da capital paulista. Era uma travessa da Rua Maria Paula e paralela à Rua Brigadeiro Luiz Antonio. Foi a primeira morada quando lá cheguei, na metade dos anos 70. Era pequena em comprimento, e estreita em largura. Do seu início até a sua metade, a subida era íngreme, acredito num ângulo de 45º, que só amainava da metade para o seu fim, quando fazia a curva que dava acesso à rua por onde os corredores da São Silvestre passam hoje em dia.

Era aconchegante, com seus casarões antigos, sobrados coloridos, pouquíssimas casas, dois bares, e um restaurante de comida caseira. Não precisava de luxo. Sua população era flutuante e basicamente de nordestinos que chegavam aquela terra com a esperança de transformar sua realidade social e conseguir sua realização pessoal.

Eu fui um deles. Morava na pensão de Dona Sílvia, senhora que tinha um casarão enorme, antigo – porém muito bem cuidado – que acolhia aquela miscigenação de raças que a procurava, é claro, mediante o vil metal. O quarto era quatro por cinco, com quatro beliches duplos, a mesma quantidade de guarda-roupas de solteiro e uma lotação completa: oito pessoas. Uma diversidade de culturas: Baiano que era sacoleiro e só trabalhava de madrugada nos calçadões da Sé; alagoano bancário que trabalhava em compensação de cheques e só chegava quando o dia amanhecia; paraibano manobrista de restaurante chique; cearense garçom de casa noturna; maranhenses vendedores em lojas de discos e potiguar que trabalhava com esportes amadores e que mal dormia.

Apesar da lata de sardinha e liquidificador cultural que era, tudo funcionava perfeitamente: das normas da casa e do quarto, aos direitos e deveres de cada um. O problema maior era que o quarto não dormia nunca. Não ao mesmo tempo. Havia um rodízio constante entre os que chegavam para dormir e os que estavam se levantando para aquilo que os primeiros tinham acabado de fazer: ir à labuta.

E os fins de semana eram de farra, jogos de baralho e de organizar seus pertences. Da janela dava para ver o Bairro da Liberdade com seus orientais impassíveis. Ia lá constantemente. Gostava de me sentar em suas praças e observar seus moradores indiferentes aos apelos da modernidade: gostava de assistir às suas festas culturais, que resgatavam suas raízes e mostravam sua arte milenar.

Também era o meu caminho para o trabalho. Tomava o metrô na estação liberdade – gostava do nome por isso era a minha estação favorita. A Praça da Sé, que também eu avistava através da imponente torre de sua catedral, me mostrava sempre o marco zero e a direção do meu Estado, para onde eu deveria seguir um dia.

A Rua Jandaia tinha como recepção dois casarões antigos – um de cada lado – que davam a impressão de serem dois deuses a protegerem os seus moradores. Engano. Eram, na verdade, morada de pessoas, digamos, não muito benquistas pelos homens da lei, que constantemente estavam realizando buscas e apreendendo objetos subtraídos pelos seus condôminos, de terceiros. Mas, verdade seja dita: nunca houve, por parte deles, qualquer investimento nos seus vizinhos de morada. Respeitavam e diziam que ali ninguém mexia com seus moradores. Velhos tempos!

Era uma rua estratégica, pois por lá se tinha acesso às principais vias: Elevado Costa e Silva, Avenida 13 de Maio, ruas da Zona Leste e Centro da cidade.

Aos domingos, todos se reuniam em volta dos bares e a vitrola eletrônica não parava de tocar os lamentos e tristezas dos que ali se sentavam para matar a saudade de sua terra, mesmo que fosse através de copos; de sons que cantavam à distância entre um coração deixado na terra querida e um coração solitário em terra desconhecida.

Confesso que usei muitas fichas para ativar os discos e fazê-los tocar canções que me lembrasse o meu querido Rio Grande do Norte. Tinha a minha interpretação pessoal, por isso a saudade não me doía tanto, só o tanto necessário.

Hoje a Rua Jandaia não existe mais, assim me disse um ex-morador dela. Foi desmanchada juntamente com a sua vizinha e paralela Rua Assembléia. Em seus lugares criaram um estacionamento com um pequeno shopping. É a modernidade e o avanço tecnológico de uma cidade que cresceu e se tornou uma megalópole.

Fica para quem a conheceu, a lembrança de um período da mocidade; o período de um sonho muitas vezes não realizado; o período do novo, do desconhecido; o período onde os amigos não serão mais presentes em seu cotidiano e que apenas ficarão em sua memória, as conversas, as alegrias, as brincadeiras, as tristezas.

“Que o seu nome, Jandaia, ecoe pelos cantos da língua de onde viestes e celebre com mel de abelha, a arara pequena que com seu canto deu origem ao nome do Ceará”.

 
18/03/07.

Obs. Imagens da internet


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"Subida da Rua Jandaia"

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Porta onde se encontra a senhora mais às crianças: meu lar durante um certo tempo.


"Jandaia no novo milênio"


























Raimundo Antonio de Souza Lopes
Enviado por Raimundo Antonio de Souza Lopes em 06/09/2007
Reeditado em 04/12/2011
Código do texto: T641053
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Raimundo Antonio de Souza Lopes
Mossoró - Rio Grande do Norte - Brasil, 60 anos
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Raimundo Antonio de Souza Lopes