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O MARQUÊS



Tudo começou num dia de temporal muito forte. O servente olhou o pátio da escola, estava inundado pela chuva e com muitos papéis, restos de lanches, copos descartáveis e pensou no trabalho   que    daria  para limpar aquele espaço que, como ele dizia, não tinha  mais   fim.    Fazer   o    quê?   Pegou a vassoura e começou a limpeza. Estava quase terminando quando  viu  uma  coisa  enrolada lá  no cantinho onde terminava a parede  lateral  da casa de força. Aproximou-se  devagar,  e  qual  não   foi  sua surpresa: era  um  cão.  Estava tão encharcado pela  chuva  que  mal  podia levantar a cabeça. O homem pensou: - Essa não! Além    dessa    molecada   endiabrada  ainda   me  aparece  um cachorro!  Passa fora, cão danado!
O pobre animal levantou  a  cabeça  e olhou para o homem com uns  olhinhos  chorosos. Ganiu.  Foi um ganido  tão triste  que   tocou  o  coração  do  servente.  Ele pegou o animal, levou para   o quartinho onde guardava o material  de  limpeza  e  secou-lhe o pêlo com panos   de  chão. Em menos de trinta minutos ele estava pronto.  Lambia  as  mãos  do  homem  em  sinal  de  agradecimento.  Foi  alimentado e ficou no quartinho onde  dormiu para recuperar as  forças.  No  dia  seguinte,  pátio    repleto   de  crianças,   período   diurno   da    escola,   eis  que aparece  aquele   cão   preto   e   branco,peito empinado   com   um  quê   de  realeza, com um    rabo   que   parecia   de    um tamanduá-bandeira. As crianças queriam saber de quem  era  o  animal.  Se havia um dono, só ele sabia. O que se sabia era que ele apareceu na cauda da tempestade.
Um aluno teve a idéia; se ele não pertencia a ninguém, então seria da escola. E foram falar com a diretora que consentiu na permanência do animal desde que não houvesse perturbação da disciplina. E o nome? Será que ele tem um? Então ele será chamado de Marquês como a escola, disseram alguns alunos.
Era Marquês pra cá, Marquês pra lá, e assim o cão ficou morando na escola Marquês de São Vicente. Comportava-se com muita educação, era amigo de todo mundo.  Jogava futebol com a criançada e até torcia com latidos fortes quando alguém marcava um gol. A escola, além do   período   diurno,  tinha  o   noturno,  freqüentado  por clientela  mais  velha. Esses também se apaixonaram pelo cão. A noite o animal fazia companhia ao vigia noturno, sr. Maneco. Eram inseparáveis. Os alunos do noturno o  chamavam  de Maneco.  Pensam que o  vigia se importava com isso? Nem ligava. Quando alguém  chamava  o  vigilante, corriam os dois, homem e animal.  De dia ele  era   Marquês e à noite  Maneco. Uma noite a diretora ouviu uma gritaria no pátio, correu prontinha para separar uma possível briga de alunos. Mas  quando  chegou  ao  local  o  que  ela  viu  foi o Marquês/Maneco correndo  feito  um  louco,  com  a  bola  de  futebol  na  boca e a  molecada atrás dele para tomá-la.
Era uma cena engraçada. O cão parava um pouco para descansar  e  quando os alunos estavam bem perto ele agarrava  bola e  começava  tudo de novo. Quando conseguiram recuperar a bola esta já não servia para jogar, estava furada  pelos  dentes  e  vazia.
Numa manhã o Marquês/Maneco conheceu uma pessoa que morava do outro lado da avenida, em frente  à  escola.  Foi atração  mútua. O senhor  passou  a mão na cabeça do cão, ele abanou a cauda e acompanhou o homem até a sua casa do outro lado da avenida. Ficou por lá. No  dia seguinte não apareceu na escola.  Os meninos ficaram tristes. O que teria acontecido? O homem veio falar com a diretora e lhe disse que o cão estava em sua casa, que já o mandara embora mas  ele não quisera  sair.  Ficara  deitado  na  calçada  em  frente  da  casa. As crianças o avistaram na calçada e chamaram: - Marqueeeeês...!.
Ele veio, rabo  entre  as  pernas  como  quem  pede desculpas, festejou os  amigos mas  sempre com os olhos na casa do outro lado   da   rua   onde   ficara   a   cadelinha,   motivo   de   seu desaparecimento. Finalmente  encontrou a  solução: ficava um pouco na escola, um pouco na casa do outro lado da avenida.
Um dia, numa de suas escapadas para ver a amada, Marquês/Maneco  foi atropelado por  uma moto  cujo condutor se evadiu e o deixou estirado no chão sangrando e ganindo de dor. Foi um alvoroço. As crianças correram em socorro do amigo.  O dono da casa providenciou a remoção do animal para o veterinário que ficava na esquina. A garotada do diurno e do noturno fizeram "vaquinha" para arrecadar dinheiro e assim  custear  as   despesas com o tratamento.  O cão foi  atendido  e  ficou internado. Os meninos invadiram   a  clínica   para  visitar  o  amigo  e  saber se ele iria se recuperar. “Doutor,  será  que  o  Marquês  vai sarar?”. “Vai sim” - respondia sorrindo. O  doutor  disse  que  era  a primeira vez que isso acontecia em sua clínica. Nunca vira tanta criança visitando um simples cão. Só   que  ele   não sabia que aquele não era um simples cão; era o Marquês/Maneco.

Nesse dia o Marquês/Maneco teve certeza do quanto era amado. Recuperou-se e voltou a sua velha vidinha dividindo  seu  tempo  entre  a  escola  e  a  casa do outro lado da avenida,  até  que,  já  entrado  nos  anos,  partiu  para o “céu dos cachorros”.

Maria Hilda de Jesus Alão
Enviado por Maria Hilda de Jesus Alão em 27/10/2005
Código do texto: T64184

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Sobre a autora
Maria Hilda de Jesus Alão
Santos - São Paulo - Brasil
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