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O "7 de setembro" e Machado de Assis


(O amigo Antônio Bacamarte, colunista do Jornal A Região, de Charqueadas, me autorizou a colocar aqui no Recanto uma parte de sua crônica desta semana. Achei interessante e socializo com vocês.)

Há exatos 131 anos, em 15 de setembro de 1876, o escritor Machado de Assis publicava no jornal carioca Gazeta de Notícias, uma crônica sobre o famoso “Grito do Ipiranga”. A propósito da data, publico-a aqui, embora não necessariamente compartilhe da opinião de Assis:

“Grito do Ipiranga? Isso era bom antes de um nobre amigo, que veio reclamar pela Gazeta de Notícias contra essa lenda de meio século. Segundo o ilustrado paulista, não houve nem grito nem Ipiranga. Houve algumas palavras, entre elas Independência ou Morte, - as quais todas foram proferidas em lugar diferente das margens do Ipiranga.
“Pondera o meu amigo que não convém, a tão curta distância, desnaturar a verdade dos fatos.
“Ninguém ignora a que estado reduziram a história romana alguns autores alemães, cuja pena, semelhante a uma picareta, desbastou os inventos de dezoito séculos, não nos deixando mais que uma certa porção de sucessos exatos. Vá feito! O tempo decorrido era longo e a tradição estava arraigada como uma idéia fixa. Demais, que Numa Pompílio houvesse ou não existido é coisa que não altera sensivelmente a moderna civilização.
“Certamente é belo que Lucrécia haja dado um exemplo de castidade às senhoras de todos os tempos; mas se os escavadores modernos me provarem que Lucrécia é uma ficção e Tarquínio uma hipótese, nem por isso deixa de haver castidade... e pretendentes. Mas isso é história antiga.
“O caso do Ipiranga data de ontem. Durante cinqüenta a quatro anos temos vindo a repetir uma coisa que o dito meu amigo declara não ter existido.
“Houve resolução do príncipe D. Pedro, independência e o mais; mas não foi positivamente um grito, nem ele se deu nas margens do célebre ribeiro. Lá se vão as páginas dos historiadores; e isso é o menos. Emendam-se as futuras edições. Mas os versos? Os versos emendam-se com muito menos facilidade.
“Minha opinião é que a lenda é melhor do que a história autêntica. A lenda resumia todo o fato da independência nacional, ao passo que a versão exata o reduz a uma coisa vaga e anônima. Tenha paciência o meu ilustrado amigo. Eu prefiro o grito do Ipiranga; é mais sumário, mais bonito e mais genérico.”

Viram, interessante que já se debatia a história real sobre o Grito do Ipiranga. A história é cheia de versões. Muito do que se tem por “verdade” histórica é uma versão oficial, dos vencedores, de quem sobreviveu, etc. A validade epistemológica do conhecimento histórico pode ser discutida a partir de fatos como esse. O que de fato aconteceu? O que os livros didáticos dizem é a verdade ou a versão aceita? Dá-lhe pesquisa!
João Adolfo Guerreiro
Enviado por João Adolfo Guerreiro em 07/09/2007
Código do texto: T642004
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
João Adolfo Guerreiro
Charqueadas - Rio Grande do Sul - Brasil, 49 anos
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