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A luz dos meus olhos

 

Não era comigo. Não podia ser comigo. Tentei disfarçar, olhando um pouco em volta, mas não vi outras pessoas por perto. Só ela. Então era comigo. morena, uns dez anos mais nova do que os meus cinqüenta e sete de idade, tudo no lugar, um caldo e tanto. Usava um vestido de alça sobre o corpo magro e bem-feito, argolas ciganas nas orelhas, um sorriso que deixava qualquer um excitado. De rosto, linda. Não, não era comigo. Perambulei pelas galerias do shopping, cumprimentei seguranças parados em cada esquina — coisa inteiramente em desacordo com os meus princípios de anarquista mitigado —, entrei numa loja de roupas e comprei um lenço de cambraia. (Por que o detalhe da cambraia? Ainda é um mistério para mim.) Em seguida dirigi-me a uma farmácia e pedi uma caixa de camisinhas gegê. Nunca se sabe. A balconista mordiscava o lábio ao entregar-me uma cesta de vime com o artigo, mas eu estava em outra. Pelo espelho atrás do balcão percebia o vulto da morena lá fora, olhando descaradamente para o meu lado, quase sorrindo. Resolvi mudar de piso e peguei a escada rolante. Danada. Na minha cola. Era uma paquera tão ostensiva que eu já corria o risco de parecer um trouxa. Pensei na praça da alimentação, o lugar ideal. Podia beber uma água tônica numa daquelas mesas de refeitório prisional e, se ela tivesse a coragem de sentar-se perto de mim, eu seria obrigado a dirigir-lhe a palavra. Afinal, nunca tive dificuldade em puxar conversa com mulher bonita. Ela sentou-se a cinco mesas da minha e começou a folhear uma revista, mas deixando claro, por movimentos ocasionais da cabeça, que estava atenta a cada um dos meus gestos. Chamei o garçom e encomendei uma segunda água tônica. Quando o homem veio, antecipei o pagamento da conta, molhei sua mão com uma boa gorjeta e disse a ele: "Pergunte àquela ali se não deseja fazer-me companhia. Mas com jeito. Diga que a estou convidando." A morena ouviu o garçom, pediu-lhe que esperasse um instante e rabiscou um bilhete. O cara voltou cheio de intimidade e entregou-me o guardanapo de papel. Que letrinha! "Guerra, daqui vamos direto ao oftalmologista. Está se prejudicando. Você não está enxergando nada! Assinado: Betinha." Minha ex-mulher, preocupada comigo. Mas como estava bonita a sacana!

 

[27.2.2005]

Luiz Guerra
Enviado por Luiz Guerra em 07/09/2007
Reeditado em 07/09/2007
Código do texto: T642997

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Sobre o autor
Luiz Guerra
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 69 anos
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Luiz Guerra