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A formiguinha e o arroz

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A formiguinha e o arroz

No sobrado do seu Raimundo moravam duas famílias. Na parte de baixo, viviam: o patriarca – o próprio Raimundo – que odiava que o chamassem assim. Achava esse nome horrível e preferia ser chamado de Pinto, seu último nome. Morava também a Dona Maísa que adorava dar cascudos nos filhos quando estes ainda eram crianças – depois de tornar-se avó, o hobby foi deixado de lado, graças a Deus. E, completando o terceto inferior dos moradores, o jovem Araújo, filho mais novo de um total de quatro filhos homens. Na parte de cima do sobrado, recém-construído, moravam três pessoas: um dos filhos do casal, a esposa e a pequena Loah.

A construção, erguida aos poucos e com muito sacrifício, situava-se entre as ruas Beta e Pi. Era uma das mais antigas do bairro e fora iniciada na década de setenta por um dos tios da pequena Loah. Não era nenhum palacete, mas abrigava duas famílias que viviam felizes e adoravam sorrir com as travessuras da rebenta.

Todos os dias, a pequena os surpreendia com novidades: questionamentos esquisitos – compatíveis com a idade de quatro anos – comparações entre o mundo dos humanos e o mundo animal... As descobertas e perguntas ajudavam na passagem do tempo, enquanto a mãe, entre um e outro afazer doméstico, cuidava da filha. Para tudo a menina dava trabalho além do normal: tomar banho, dormir, acordar... Mas a pior de todas as horas era a das refeições. Se quisessem ter dor de cabeça bastavam dizer as palavras mágicas: ‘Loah, está na hora de comer!’. A menina se transformava: resmungava, inventava brincadeiras, ia pegar papel, caneta, corria para buscar a boneca... Ao fim de tudo, voltava com carinha de quem não está com fome que toda boa mãe conhece! Pronto. Estava armado o barraco. Era esperar e se compadecer com o sofrimento de mais uma doce e louvável missão de mãe: alimentar filhos que nunca estão com vontade de comer!

O pai da Loah, que raramente estava em casa no horário das refeições, teve a ideia de assumir essa tarefa. Pegou a filha e a colocou, sentando-a junto ao colo. A garota, feliz com a novidade, aceitou as primeiras colheradas sem muita rejeição. Passado, porém, o encanto, começou a peleja. A mãe assistia a tudo sorrindo – sentia-se aliviada e pensava: “Agora ele sabe o que passo!” – E sorria, silenciosamente, em razão de o marido estar em casa com a filha e, principalmente, pela dificuldade enfrentada pelo inexperiente pai.

Num dos últimos recursos, o pai da pequena Loah tem outra ideia. Contar algumas historinhas para a filha – seria viável alternativa para desviar a atenção da filha e conseguir concluir a tarefa. Faz a sugestão:

– Você quer que o papai conte uma historinha? A resposta não poderia ser mais animadora! A menina dá um grito de alegria e diz:

– Eu quero! Conte, papai!

Segue-se nefasto silêncio...

– Conte, papai! Você não vai contar, não?! Esperneia a garota, enquanto rejeita mais uma colherada.

Aflito, o pai tentava ganhar tempo. O problema é que pensara na ideia da historinha, mas não tinha nenhuma para contar. Não se recordava das historinhas infantis que ouvira. Suspira fundo, buscando sorver inspiração, e decide: inventará qualquer historinha que provoque a felicidade da filha. Começa:

– Era uma vez uma menina que morava numa casa muito linda.

– Continue, papai!

– Calma!

E continua – agora mais aliviado por acreditar que o velho recurso do sugestivo ‘era uma vez...’ estava produzindo o desejado efeito.

– Essa menininha era muito danada e não gostava de comer.

As feições da ouvinte, modificadas, demostram identificação com o enredo. Ela arregala os olhos e, após engolir em seco uma colherada cheia de arroz, pondera:

– Viu, mamãe! Ela também não gosta de comer, viu! E faz carinha de triunfo.

A mãe, até então mera observadora, tenta intervir, mas é interrompida:

– Essa menina, toda vez que ia comer, deixava cair muito arroz e a mãe ficava triste, porque tinha gente passando fome e a filha destruía, sem o menor rancor, o alimento feito com carinho.

– Por que é que ela derrama, hein papai? E o que é rancor?

– Ela derrama porque não abre o bocão bem grande para comer.

– Mas eu abro, não é papai?! Quer ver! (E abriu o bocão para nova colherada cheia).

O pai prosseguiu:

– Na casa da menina, existe uma formiguinha que tem várias formiguinhas bem pequenininhas. Todas moram nos buracos das paredes da casa, em caverninhas bem feitas, que fizeram com muita dedicação, porque as formiguinhas são organizadas... A mãe das formiguinhas sai todos os dias procurando alimento para as filhinhas dela.

– Elas têm muita fome, papai? As filhinhas dela gostam de comer?

– Sim. Elas saíram das casinhas na floresta e vieram morar na cidade, mas aqui falta comida, para elas e para muita gente. Aqui não tem comida para todas as pessoas; falta alimento para os bichinhos também. Por isso ela vai procurar comida na hora do almoço na casa da menina que não gosta de comer. Quando, volta as filhinhas dela ficam muito felizes.

– Mas elas apanham para comer?

– Não. Elas comem tudo que a mãe dar para elas. E, se pusessem, comeriam muito mais!

– E por que elas vêm aqui na minha casinha, papai? Por quê?

A essa altura, a sapeca da menina já se havia apoderado da história e já se sentia a própria criança que derramava o arroz...

– Porque a mãe das formiguinhas descobriu que todos os dias a menininha derrama arroz no chão quando vai comer. Ela aproveita e leva o arroz para as filhinhas dela!

– E como ela leva se o arroz é bem grandão assim, oh?! – e abre os braços como que a mostrar o tamanho de um arroz em relação ao tamanho da formiguinha.

O pai continua – a refeição já estava acabando. Mais duas colheradas e pronto, missão cumprida!

– A primeira vez que a formiga viu a menina derramando a comida ela estava sozinha. Tentou levar a comidinha para as filhinhas, mas não conseguiu. Então, voltou para a casa dela e pediu ajuda de outras formigas que voltaram para buscar o arroz. Ela levou tudo que a menina tinha derramado no chão e as filhinhas dela comeram tanto e ficaram tão felizes, sabia?... E você sabia também que as formigas conseguem carregar coisas muito maiores e mais pesadas do que elas?

– Que legal, papai! Então eu posso derramar arroz todos os dias, não é!? Porque as formiguinhas gostam! Viu, mamãe? E por que a formiguinha não está aqui agora? Eu posso esperar até ela vir pegar o arroz, papai?

– Se você derramar arroz, Loah, a mamãe fica triste – interveio a mão mais uma vez.

– Mas a formiguinha não fica feliz?! Eu derramo só um pouquinho, tá mamãe!

Hoje, as refeições são de dois tipos: as que são feitas com a historinha da formiguinha e do arroz e as sem esse tempero. A mãe da pequena Loah foi obrigada a aprender a historinha. Sempre que foge a algum detalhe do enredo original, é repreendida pela garota:

– Não é assim não, mamãe! Ela chamou os amiguinhos e... A senhora nem sabe contar a historinha! Vou dizer para o meu pai, viu!

– Vem comer, Loah!

– Oba! Conta a historinha da formiga, mamãe, você conta?

– Sim, filha. Era uma vez...

Do livro 'Crônicas e mais um conto'.
Nijair Araújo Pinto
Enviado por Nijair Araújo Pinto em 08/09/2007
Reeditado em 07/03/2013
Código do texto: T643696
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Nijair Araújo Pinto
Crato - Ceará - Brasil, 46 anos
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Nijair Araújo Pinto