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HARUKO
 

Imagem :trabalho da webdesigner Silvane Sabóia,meu rosto sobreposto a cartão antigo.
 

A perua que nos enviava, numa cidade do sul de Minas, onde estudei,passava na porta da pastelaria de uma família japonesa.As moçoilas se ouriçavam , porque o filho do dono,um nissei ,estava sempre a olhar ,com os olhos amendoados, as normalistas e ginasianas em desfile,pelo menos, era o que elas pensavam.Ele olhava para mim , que quietinha ,fazia que não olhava e o via, ainda assim. Sua mana era minha colega de sala e contava da paixão do irmão por mim. Nas festas religiosas, normalistas e ginasianas do Colégio Sagrado Coração de Jesus, desfilávamos de uniforme especial,sobre as ruas atapetadas de flores, onde as cores formavam imagens sacras.E ele seguia -nos, a tirar retratos.De mim. Para isso, afastava-se para obter o melhor ângulo, subia em muros e calçadas.Ou nas festas cívicas, qual o sete de setembro,e no aniversário da cidade, cujo nome quer dizer "pedra amarela", ou "água que jorra da pedra" .Minha colega no alto do carro alegórico,enrolada em camadas e camadas de papel celofane, por cima de alguma roupa mais discreta, por certo.Era o tempo do recato. 

Também me lembro do casamento de minha amiga Gina alguns anos ,mais velha que eu.Ele, que era amigo do noivo, estava no altar e eu na primeira fila.Ou na segunda.O certo é que ele batia flashs do casal , virava-se e me fotografava.Eu  gostaria de ter essas fotos da adolescência,descritas apenas ao meu imaginário.Morei lá, dos 12 aos 16 anos. Meu mano Franck, que por ter olhos puxados, era chamadode japonezinho, adorava ir lá, comer pastel que os "primos faziam"Nós dois éramos tíimidos.Mas gostávamos de dançar, no cassino dos oficiais. E ele tremia quando tomava minha mão e me conduzia à pista de dança.Nunca se declarara e um dia, num destes bailes, noivei - e ele deve ter ouvido anunciarem o noivado ao microfone.Há algum tempo, eu já namorava um Chiaradia.Belo e alto rapaz, que gostava de cuidar dos animais da fazenda, fazer partos complicados na animária.Eu já queria ser fazendeira,mas papai temia pelo meu futuro em cidadezinha...Logo, estávamos de volta a Juiz de Fora,mas isso é outra das minhas histórias.
 
O nissei e eu trocamos longa correspondência epistolar.Cartas de até doze páginas.Eu lia todos os possíveis romances sobre o Japão, reportagens.Ele me enviava jornais paulistas -e foi quando me interessei por haikais. Li Lady Nijo, soube de Basho.Assisti a Madame Butterfly. Foi então que recebi dele um batismo:o nome de Haruko, que quer dizer Primavera.E bordei para ele, um marcador de livros numa fita de  gorgurão de seda, com flores de cerejeira... 

E somos quase do mesmo dia, em julho.Ele contou-me sobre a festa do Tanabata(*) e, de signo lunar, éramos para lá de românticos.Vivíamos no território róseo dos sonhos. Tive muitos namorados e todos sabiam que , "em algum lugar do passado"eu amara um japonezinho.E respeitavam meu amor pelo Japão.Até ganhei bonecas brancas, com perucas ,gueixas e bebês.Caixinhas de música, objetos de laca,imagens de sakuras . Claro, um foi mais ciumento.Noivei com ele dia de meu aniversário.Fui noiva muitas vezes (**).E a minha aliança foi parar no oitão da casa de meus pais: tirei-a do dedo e, irritada, joguei-a fora.Para ele era difícil aceitar que o nissei me enviasse aquele presente infalível, e que nosso sentimento era absolutamente platônico,por mais que eu contasse que ele fazia isso há anos. Fui ,então,presenteada com o romance "Nuvens de Pássaros Brancos", de Kawabata(***).O noivo, foi buscar a aliança desprezada e convenceu-me, com seus olhos violeta e seus versos de poeta, a colocá-la novamente no dedo anular. 

De outra feita, meu correspondente mandou-me duas pérolas, para que eu fizesse brincos e escreveu: "nossas almas são uma só".Uma vez, recebi uma latinha , pelo correio com água e um ramo de cerejeira-cujas flores não resistiram à escuridão da viagem, embora um dos botões gorduchos tenha permanecido sem se abrir,mas vivo.Simbólico...Guardei-o, já seco, por muitos anos... A webdesigner Silvane Sabóia, que adora trabalhar imagens, vestiu-me de gueixa(imagem acima).

Quando mocinha, eu tinha a fantasia de "virar" japonesa.Os penteados elaborados dos anos 60, permitiam essas brincadeiras.E ainda usávamos um risco de lápis em cada olho,puxando-os para cima.Minha mãe, que sabia da história,achava graça e deixava-me alimentar a matéria amorosa dos sonhos. Nos meus dezoito anos, vesti um duas peças de seda cor de rosa, que tinha a ver...Na cidade onde eu morava, ao sopé da serra da mantiqueira, pessegueiros temporões abriam -se em rosadas nuvens quando eu aniversariava.Fazíamos grandes arcos para enfeitar a varanda e lá ficava eu, romântica, a usar o potencial do imaginário e crer-me no terra do sol nascente... 

Quando o plenilúneo cobre de purpurina dourada as terras de mim e as terras daTerra, penso que, naquele mesmo momento, ele poderá lembrar da menina de olhos enormes que fui, a olhar a lua prenhe de beleza.. Por uma época,nos Anos 60, troquei cartas literárias com o Desembargador Vasques Filho, do Ceará,um mentor ,que gostava de meus escritos.Noutro dia, o filho dele ,Antonio Vasques ,escreveu no Recanto das Letras,para agradecer a forma delicada com que me refiro a seu pai, que também morara em Juiz de Fora, para onde fui nos Anos de Chumbo.

Contei a esse "tio" literato,excelente poeta,da minha paixão impossível.Um dos sonetos que ele me dedicou,chegado em cartão , onde ele próprio pintava suas aquarelas,assim terminava,interpretando minha historieta, por certo: 


"Tu és Haruko, a primavera, o sonho,
 e eu sou o Outono, frígido e tristonho, 
reunindo os sonhos que deixei dispersos ."(****) 


Agora, a primavera é esperada .Os ventos secos de agosto, a falta de umidae relativa do ar,aqui em Minas gerais, fizeram com que minhas plantas perdessem um pouco da exuberância.Mas uma flor-de-seda já abriu-se em pink.A semente de pata-de-vaca que semeei há uns dois anos, longilínea qual uma adolescente ,abriu hoje os primeiros cachos de suas flores que parecem orquídeas.As violetas, antes em cachos volumosos, ensaiam mostrar as cabecinhas aveludadas, poucas ainda.A trepadeira da flor de cera presenteou-me com apenas dois cachos.As bromélias escondem suas exuberantes florações. Ainda assim , espero.A primavera, cíclicamente,sempre há de retornar.E,para mim , por tudo e mais ainda, que acabei de relatar, tem um sabor além da própria beleza em si... 


Belo Horizonte, 13/09/07,01:23h
 

(*) Tanabata:a festa das estrelas Vega e Altair, tem diversas versões, numa delas, o manto da princesa transforma-se na Via Láctea.Noutra, os dois namorados , de tão absortos em seu sentimento, esquecem suas tarefas e são transformados em estrelas.Para minorar seu sofrimento, podem encontrar-se no dia sete de julho (neste ano, caiu no 07/07/07). As pessoas acreditam que as estrelas pastoras podem então, atender a pedidos, que escrevem em papeizinhos e colocam nas árvores... 


(**) Os rapazes pediam a minha mão e noivavam, a tentar reduzir os rigores de papai.Ele então, dizia:"Não pense que porque noivou com minha filha"...E o cerco ficava mais apertado, apesar de eu ser comportadinha...
 

(****)Pelo Correio, chega-me o belo livro póstumo de Santiago Vasques Filho, um Poeta desembargador, que tinha paciência de trocar longas cartas datilografadas capricosamente, com as minhas , manuscritas, por certo com a letra ainda nãodefinida. Ele realmente parece que confiava em meu potencial de poeta, pois indicou-me para o Instituto de Cultura Americana, pela filial em Portugal e para a ARIEL, em Montevidéu,Uruguai.O livro chama-se Folhas Mortas (ainda vivíssimas,embora fora do tronco)... (***)Kawabata, o grande romancista japonês.
 

Publicado por clevane pessoa de araújo lopes em 13/09/2007 às 00h00 Seja o primeiro a comentar Indique esta leitura para amigos 

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Enviado por clevane pessoa de araújo lopes em 13/09/2007
Reeditado em 14/09/2007
Código do texto: T650225

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Sobre a autora
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