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Frans Krajcberg: a saga de um artista e a natureza

Frans Krajcberg: a saga de um artista e a natureza

 
Pela quarta vez consecutiva visitamos a casa de praia de nossos amigos Valter e Glória, brasilienses, ela madrinha do nosso filho Rodrigo, em Nova Viçosa, localizada no litoral do Extremo Sul da Bahia, na região próxima da divisa com os estados de Minas Gerais e Espírito Santo. Situada entre o rio Peruípe e Oceano Atlântico, é maravilhosa, formada por ecossistemas derivados do que sobrou da Mata Atlântica, restingas, manguezais, ilhas oceânicas e recifes de coral. O Municicípio dista de Lavras aproximadamente 960 Km.

Logo na entrada da cidade o Sítio Natura e Museu Ecológico Krajcberg chamam a nossa atenção. Ali mora um “gringo” como diz o povo, que em grande parte não simpatiza com Krajcberg. Talvez pelo seu temperamento exigente, que não combina muito com o do baiano. Mas, por um golpe de sorte conseguimos abrir caminho para uma entrevista, já que são poucos seus depoimentos a imprensa. Isto nos foi proporcionado pelo farmacêutico Célio, membro da maçonaria e amigo pessoal do escultor e ambientalista. Depois de alguma conversa, nos encontramos a primeira vez com Frans Krajcberg no Sítio Natura, onde reside, no momento em que embarcava grande esculturas encaixotadas para seu ateliê, em Paris. Marcamos uma conversa para o dia seguinte, sábado, aos pés do gigantesco galho de pequi, com três metros de diâmetro e doze de altura, que trouxe da Amazônia, que fincou na terra baiana e onde construiu no topo, sua casa. “Quando o transportei para cá, já tinha sessenta anos tombado no chão e agora mais trinta aqui ”, afirma Krajcberg, "Quando adquiri esta fatia de Mata Atlântica ergui minha casa arbórea, de onde tenho uma visão perfeita do mar e do topo das arvores”.

Frans Krajcberg nasceu em Zozienice, na Polônia, em 1921 e estava na fronteira com a Alemanha quando iniciou a Segunda Guerra Mundial. Judeu, estudou na Alemanha (Stuttgart) e a família foi dizimada num campo de concentração. Nunca mais viu se pai, mãe e quatro irmãos, que devem ter sido cremados. Mudou para o Brasil em 1948, graças ao pintor Marc Chagal que lhe comprou uma passagem de terceira classe para vir ao Brasil, tendo morado em São Paulo, Rio de Janeiro, Paraná, Minas Gerais e Bahia. Tornou-se amigo de Volpi e Segall entre outros artistas. Do Rio de Janeiro viajou para São Paulo num trem, como clandestino. Foi trabalhar na pintura de azulejos, em Monte Alegre, na Kablin, principalmente aqueles utilizados da Igreja de São Francisco, na Pampulha, em Belo Horizonte, em painéis de Portinari. Acabou por naturalizar-se brasileiro. Aos 83 anos desfruta de uma jovialidade invejável.

Krajcberg não gosta de ser chamado artista. Na sua concepção é um ser humano fazendo qualquer coisa, querendo mostrar sua revolta pela destruição promovida pelo homem. Veio para o Brasil por acaso. “Que fazer do Homem?”, se perguntava. “Ir para onde?” Conhecia toda a Europa e nesta época se dedicava ao desenho e pintura. Aqui no Brasil fez as primeiras esculturas no Pico do Itabirito, em Minas Gerais. Junto com o poeta Carlos Drumonnd de Andrade lutou pela conservação do Pico, contra a mineradora norte-americana Hanna. “Preservaram o topo do Pico do Itabirito e por baixo ele pode ser escavado”, critica Krajcberg. Aos poucos tomou gosto por um outro lado da vida, e coragem para continuar a viver.. “Nunca compreendi a guerra, a destruição “, diz Krajcberg. “Sou contra o racismo e a religião, pelas divisões que causam” De partidos nem se fala...

Na IV Bienal de São Paulo, em 1957, conquistou o prêmio de melhor pintor nacional e no Rio de Janeiro, também em 1957, o prêmio do Salão de Arte Moderna. Em Veneza, foi premiado na Bienal de 1964. Frans Krajcberg abandonou a pintura porque se intoxicou com as tintas. Árvores abandonadas foram as primeiras esculturas, em Itabirito e até hoje não abandonou os pigmentos mineiros.”Nesta época fazia peças muito românticas”, afirma Krajcberg. Foi quando então sentiu que precisava exprimir sua revolta, fazendo grandes viagens e fotografando os abusos. Andou o Brasil inteiro e se convenceu de que não existia país mais rico... A natureza lhe mostrou uma vida nova, minimizando os traumas trazidos da Europa e passou a trabalhar, fazendo esculturas com árvores queimadas em incêndios florestais. Como ambientalista fotografa as áreas devastadas e denúncia a destruição em fóruns internacionais. “ Participei do Forum Global, 1990, Moscou 1992 e 1994 Kioto, cujas determinações os norte-americanos não aceitaram. Sou membro da Cruz Verde que tem Gorbachev, como presidente e Gore Vidal, como vice”, diz Krajcberg..

Com sua fala mansa Krajcberg pergunta, quem é o brasileiro. E ele mesmo responde que tudo tem a ver com a imigração, o caldeamento de raças, mas que é preciso lembrar que já existia o índio. Para ele fala-se pouco desta raça e de sua cultura. “Estuda-se a importância do negro, mas esquece-se do índio.E como todo nós nasceram neste planeta e portando tem o direito de viver:, afirma.

Para Frans Krajcberg o melhor escultor brasileiro é Franz Weissman, com quem dividiu um ateliê nas Laranjeiras, no Rio de Janeiro, em 1957. E aos 83 anos, não cessa sua luta, revoltado com a matança do ser humano. Critica o programa “Fome 0”, do Governo Federal, afirmando que a riqueza que destroem serviria para dar comida a todos. “Poucos brasileiros conhecem este país. Não conhecem sua região. País rico, grande e muito problemático. Planos e projetos são efetuados sem análises prévias. O ouro sai do país via contrabando. A madeira também.. A riquezas que estão destruindo. Minas Gerais,Espírito Santo e Sul da Bahia tiveram sua floresta muito rica, a Mata Atlântica, destruída em cinqüenta anos. No Sul da Bahia apenas duas madereiras capixabas acabaram com tudo.”

“Vejo o Movimento dos Sem Terra (MST) “, diz Krajcberg, “ e sei que não querem terra, seu movimento é político. Na verdade existe pouca terra para o homem e extensões enormes abandonadas. Nunca vi o Brasil tão violento como hoje e tão estranho politicamente. Não se deve esquecer que em trinta anos a população dobrou e não temos planejamento. Ë preciso planejar o crescimento da população. Primeiro, escola e cultura. Até hoje não ouvi o presidente Lula falar em cultura. O brasileiro precisa ter trabalho e viver com dignidade.”

Quando o escultor chegou a Nova Viçosa, em 1971, haviam três ruas e uma fábrica de compensados. Pretendia-se que fosse uma cidade diferente, uma cidade de cultura. Esta era a idéia de Zanini, celébre arquiteto carioca, que convenceu Oscar Niemeyer e Chico Buarque a adquirirem terrenos. Hoje um dos vizinhos de Krajcberg é Newton Cardoso, ex-governador de Minas Gerais e dono do Sítio Alegria...

Profundamente revoltado Frans Krajcberg diz que a cultura na Bahia é só em Salvador e para turistas. Acostumado ao dialogo com Jack Lang, ex-ministro da Cultura da França, afirma que o Ministro Gilberto Gil nunca cantou como está cantando e é o ministro que mais canta no mundo. Para ele há a necessidade de manter o estúdio na França, pois no Brasil não tem diálogo cultural. “Em Paris a prefeitura está erguendo o novo Espaço Krajcberg”, diz. “Aqui no Brasil o Museu Ecológico não tem apoio nem da Prefeitura, nem do Governo da Bahia. A continuar assim, somente com investimentos próprios, vou parar. Faltam 5 pavilhões, em forma de palhoça, a serem construídos, Tenho obras que recebi de presente de Bracher, Volpi e muitos outros artistas, que fazem parte do acervo. Desejo apoio moral. Agora mesmo, Curitiba, no Paraná, criou o Espaço Krajcberg, no Espaço das Planta e um ato foi assinado. A qualquer momento posso levar o museu para outra localidade que dê mais apoio. Criticam a minha postura aqui em Nova Viçosa, mas nunca vi uma escola pedir para visitar o Sítio Natura. Participei de cinco filmes e nunca vi um jornalista bahiano aqui no museu. Passo pelo prefeito Manoelzinho do Madeira e ele nem me cumprimenta. E eu sei, mais do que ele, que a continuar como vai, Nova Viçosa não terá atrativos turísticos em quinze ou vinte anos.”

Olhando as árvores: “Queriam rasgar o meu pedaço de Mata Altlântica, fazendo uma avenida beira mar, sem sentido e eu fui obrigado a lutar contra isto.Neste pedaço de terra plantei três mil mudas nativas da Mata Atlântica. Eu perdi toda a minha família incinerada,Mas, eu nasci e tenho o direito de viver no mundo, neste país.. É preciso saber que a continuarmos como vamos, a vida no futuro será um desastre! A minha arte decorre muito do momento em que olhando a natureza queimada, procuro vestígios dos rostos de minha mãe, meu pai e meus irmãos”.

“Frans Krajcberg faz parte desta raça de homens que são raros, automarginalizados, muito individualistas, mas também muito generosos na sua solidão. A vida foi rude para ele e as provas da última guerra o marcaram para sempre. A floresta brasileira foi ao mesmo tempo o meio, o teatro e o agente de uma verdadeira renovação humana – a redenção de Krajcberg pela arte”, afirma Pierre Restany, ao assinar o Manifesto do Alto Rio Negro, juntamente com Sepp Baendereck e Frans Krajcberg.

 
Pedro Coimbra
Enviado por Pedro Coimbra em 13/09/2007
Código do texto: T650446

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Sobre o autor
Pedro Coimbra
Lavras - Minas Gerais - Brasil, 68 anos
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