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Mais Do Mesmo

             Uma criança atravessa a rua para comprar um sorvete. Um carro para em frente de um banco, quatro homens entram e logo mais quatro homens saem atirando, os guardas trocam tiro com os supostos bandidos que entram no mesmo carro e partem. O sorvete que era rosa-morango agora tem manchas de sangue... Assim termina uma cena cotidiana, assim começa uma caçada pela melhor imagem, todos assistem a pobre garota morrer na “calçada da fama” e ficam ocupados demais para chamar uma ambulância por que filmavam a cena da menina morrendo aos poucos... Eles tinham que colocar isto no You Tube não é?
           - Isso é uma grande matéria! – diz Washington Luiz, um repórter mediano que quer o melhor furo de reportagem... Isso se chama viver na desgraça alheia.
            Nos preparamos, eu irei dar a primeira entrevista sobre o assunto e Washington irá fazer a cobertura do enterro...
            -... Quatro suspeitos fortemente armados saíram deste banco trocando tiro com os seguranças... Testemunhas afirmam que eles partiram em um carro... Uma garota de nove anos foi atingida – meus minutos gloriosos, minha reportagem sobre o ocorrido, ninguém se importa com o assalto, todos só querem saber da garota, todos só querem se deliciar com o sangue novo que se derramou... Isso se chama ibope.
             “Garota morre em bala perdida!” São os gritos sanguinolentos dos jornais, tudo é envolto desta garota, tudo é envolto neste caso, neste acontecimento, todos querem saber, mas ninguém quer ajudar...
             A mãe chora desesperadamente no enterro, Washington Luis cobre tudo isso com excitação... Será a matéria principal do horário nobre. A mãe chora, chora, chora. O desespero, a tristeza, um ser humano normal respeitaria, desligaria a câmera, choraria também pela perda de um ser humano pronto para aprender sobre o novo mundo, choraria sobre uma vida assim injustamente roubada... Ele não desliga a câmera, ele quer gravar este momento... Isso dá ibope.
          A noticia se repete uma, duas, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove, dez e por ai vai de vezes... Sempre falando Mais do Mesmo, mesmo sabendo que dentro de meses tudo isso seria deletado de nossas memórias e nem lembraríamos mais da mãe, de sua filha, de banco entre outras... Os abutres da mídia estariam em outra carniça fresca.
         Acompanham as prisões dos bandidos, multidões acompanham as prisões, as condenações, quase como um protesto por não matarem os bandidos eles gritam, pedem justiça, pedem por algo que é nosso por direito, pedem por que mais querem, pedem, pedem, pedem!
      - JUSTIÇA, JUSTIÇA, JUSTIÇA, JUSTIÇA, JUSTIÇA, JUSTIÇA, JUSTIÇA, JUSTIÇA, JUSTIÇA, JUSTIÇA, JUSTIÇA, JUSTIÇA! – a justiça é cega, mas ela se fez de surda, de todos os quatros, três foram presos, um era filho de magnata que procurava desesperadamente por diversão... Filho de político...
      A justiça brasileira é cega, é surda, é muda e adora os noticiários!
      O Mais do Mesmo se repetiu durante varias semanas, vários meses até cair no limbo do esquecimento... Em tempos depois ninguém ligou mais para a mãe desesperada, para a filha assassinada, para o filho de político o único que não fora para “a forca” ou seja o único que não compartilha de uma prisão... Ninguém mais lembra, tudo agora é apenas uma nevoa, uma memória apagada e estocada em um arquivo, todos os jornais agora só serviram para trabalhos escolares e talvez aquela pomposa capa sanguinolenta sobre todos os fatos sirva para enxugar urina de cachorro... É o destino de todas as notícias.
     Ninguém mais lembra de nada, todos estão agora concentrados e discutido fervorosamente o destino, sim o destino dos participantes do Big Brother Brasil.
Rhuan Rousseau
Enviado por Rhuan Rousseau em 13/09/2007
Código do texto: T650495

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Sobre o autor
Rhuan Rousseau
Fortaleza - Ceará - Brasil, 26 anos
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Rhuan Rousseau