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A LENDA DE ZAMBELÊ - Nova versão para MARISA

Contam os antigos que há muito tempo, na época da escravidão, vivia em uma fazenda um escravo chamado Zambelê.
Tinha ele as pernas finas, africano da cepa, peito robusto, cor de ébano, carapinha espessa, olhos vivos. De caráter honrado e senso de justiça acima de tudo. Em sua terra ele tinha sido um chefe.
Era o trabalhador mais requisitado pelo senhor da fazenda, pois fazia sempre as tarefas pedidas e em tempo curto.
Só que um dia...
Um escravo meio mambembe, já entrado em anos, não tinha conseguido terminar de arar seu pedaço da tarefa até o final do dia e, já meio esquentado que era, o senhor da fazenda ficou muito bravo e resolveu dar-lhe uma tunda pra servir de exemplo e estímulo aos outros escravos da lavoura.
E o pobre coitado foi para o tronco, implorando misericórdia:
- Sinhozinho, não me bate, não. Num tô dano conta de ará a terra, já tô véio demais!
- Você ta é com preguiça, seu velho safado!
E aliando o gesto à palavra, ele mesmo, amarrou-o ao tronco e começou a lhe bater nas costas com o chicote de tocar o cavalo.
Os outros escravos amontoados no terreiro por ser o final do dia, assistiam a tudo, revoltados, mas calados.
E Zambelê estava lá, indignado com a injustiça, pela desonra de ver um velho ser açoitado em sua debilidade. O sangue foi subindo do coração pra cabeça e afinal estourou!
Nem bem o senhor da fazenda tinha chegado à terceira chicotada e Zambelê avançou para ele e tirando-lhe da mão o chicote, levantou-o nos braços fortes e o lançou para longe, derrubando ao chão.
Tamanha foi a fúria do senhor da fazenda, que na mesma hora levantou-se, passou a mão num facão que estava perto do tronco e, forte como era, de uma vez só cortou o pescoço do escravo revoltado, pegando-o de surpresa! Só no susto mesmo...
Foi um “Deus nos acuda”. Os negros correram feito uns doidos para a senzala, apavorados com aquele gesto cruel. Não sabiam o que fazer. O homem ainda brandia o facão ensangüentado!
Ainda vociferando, o senhor da fazenda chamou seus peões e mandou que enterrassem bem nos confins da fazenda aquelas duas partes separadas do nobre escravo.
Mais que depressa, um homem catou a cabeça, outros se juntaram para carregar o corpanzil imenso e se afastaram para cumprir as ordens dadas.
Só que os empregados que carregavam aquele corpo pesado, enterraram logo que saíram das vistas do senhor e do terreiro da casa grande e o peão que pegou a cabeça caminhou muito mais e enterrou bem mais distante, lá pelos confins das terras da fazenda, debaixo de uma árvore.
Nunca mais se falou dele.
E conta a lenda, que angustiado por ter sido enterrado aos pedaços, a alma de Zambelê vagou durante muito tempo pelo mundo afora procurando o lugar onde enterraram sua cabeça para uni-la ao corpo. Ela jazia solitária debaixo de uma oiticica.
Negro da canela fina e bom corredor, ele ia correndo por toda parte em sua busca tristonha, solitária e desesperada, e sabia de um tudo, via tudo e sabia onde tudo se encontrava.
Por essa razão, quando alguém perdia alguma coisa, pedia ao Zambelê que a trouxesse de volta, pois com certeza, ele teria visto e sabia onde estava o que a pessoa tinha perdido e procurava. E o objeto era encontrado!
Um dia Deus se apiedou dele e, reconhecendo sua boa vontade, mostrou-lhe afinal em que lugar estava sua cabeça enterrada para enfim juntar tudo e dar descanso à alma daquele nobre homem.
E, como ele afinal já conhecia o mundo todo, Deus perguntou-lhe se ele não gostaria de continuar ajudando as pessoas encontrando suas coisas perdidas.
A resposta só poderia ser sim, homem de bom coração que Zambelê sempre foi. E ele faz isso para todos.
Ele sempre me atende. Se não encontro afinal o que procuro, acabo por saber porque ou como perdi.
 Não tenha medo. Agradeça e ore por Zambelê.



Rachel dos Santos Dias
Enviado por Rachel dos Santos Dias em 14/09/2007
Código do texto: T652055
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Sobre a autora
Rachel dos Santos Dias
Campinas - São Paulo - Brasil
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Rachel dos Santos Dias