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de despedida

As saudades que terei de ti serão, grosso modo, as que me apetecerem. Se der o caso por terminado e enterrado, talvez até me esqueça que existes. Desse modo, quando te recordar, terás apenas existido, será coisa irremediavelmente do passado e nem conseguirá ficar presente no Presente. Admitindo que não tenhas morrido, uma vez que te esqueci, se não me estiver a lembrar de ti, poderemos cruzar-nos e nem tomarei consciência da tua existência. Este é o estádio de rasura nas relações, apagamos a existência do outro.
A rasura não é premeditada, é uma defesa natural. Torna-se fácil para quem tem a consciência tranquila, é absolutamente sem esforço, quase podíamos falar duma consequência na sequência natural das coisas, um depois de depois. Um pois foi, um pois é, um pois sim, foi. É sempre uma tentação pôr fim às coisas da maneira mais fácil, o único inconveniente até se mostra conveniente, esquecemos.
Por principio evito a rasura, abstraio-me e isso é o suficiente. O "longe da vista longe do coração", é uma meia verdade que se completa quando se descalça a outra meia: longe do pensamento. Nesta situação a memória fica livre, existe mas não é praticada, o pensamento ignora a informação que ela possa conter. Não fazemos por esquecer, mas acabamos por ignorar a memória, o que acaba por dar quase no mesmo.
Além destas duas hipóteses não há muito mais, pois o que fica será pensar evitar a separação. Ora isso é o mesmo que procurar uma união, projecta-se no Futuro. Funciona como um desejo, preenche o Presente e é a danação das separações. Em vez duma separação, a coisa transforma-se num castigo. Isso é para as más consciências, diz-me muito pouco.
Eu apenas quis fazer da literatura o que ela é, algo de literal, a realidade pura e dura. Para mim é o que fica escrito, é como se estivesse dito: está feito. O quê? É aqui que a literatura se completa, com o leitor. Temos de nos interrogar, ler, só depois disto podemos chegar ao fim. Como já alguém escreveu e agora me escapa o nome «Uma história bem contada é aquela que não tem fim», outra citação deixada sem dono por ignorância deste utente será «O que conta, é sempre saber o que decidimos!»
Confesso, esta citação, que eu saiba, só cita o que acabei de escrever. Deixo pois esta como uma grande citação, agora completa, citação do que me apeteceu escrever. Quanto às despedidas, só nos despedimos de quem dizemos adeus. Na situação descrita na hipótese desta escrita, despedidas para quê? Um Até depois..., mais que suficiente. Saber o que o leitor ou leitora possa querer comentar, é o que sobra: o que faz da literatura obra. Quanto à vida, deixemos que se faça sempre de encontros, sempre que possível. Quanto ao inevitável, evitemos os desencontros :) Há sempre este passar ao lado que nos dá sempre dois lados, do lado de dentro ou pelo lado de fora. Estou fora, crónica finda.

{As crónicas são coisas que me passam pelos cornos... sobre diferentes assuntos, dedico-as a Cronos, o deus do Tempo, segundo a Mitologia Grega}
Francisco Coimbra
Enviado por Francisco Coimbra em 15/09/2007
Reeditado em 15/09/2007
Código do texto: T653396
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Sobre o autor
Francisco Coimbra
Portugal
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Francisco Coimbra