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EFEITO SECUNDÁRIO

Ao sair bati a porta com tanta força, que só ouvi o barulho do vidro estilhaçando.
Ao sair bati a porta com tanta força, que ressonava em mim a contrariedade disparadora de palavras tão ásperas:
- Estúpida, burra, ignorante, idiota, imbecil.
Ao sair bati a porta com tanta força, que sequer imaginei o desdobramento da minha falta de educação, insensibilidade, e desrespeito com minha companheira.
 Ao sair bati a porta com tanta força, querendo apenas jogar um futebolzinho com amigos.
Ao sair bati a porta com tanta força, que tropecei em um degrau, mas não senti a sensação de cair, senti a sensação de encolher. Tudo a minha frente se agigantou. Do meu corpo saíram asas, minha visão atingiu trezentos e sessenta graus. Foi então que percebi:
- Uma mosca... Meu Deus, eu sou uma mosca... Não acredito.
Mas o fato de agora ser uma mosca, tornou-se secundário. Todo foco, toda luz, todo caminho apontava para minha mulher.
Pelo vão do vidro quebrado, entrei em casa. Ressonava em mim o desejo do perdão pelas bobagens que tinha dito... tudo inútil. Meu zunimento de nada adiantava, ela não ouvia.
Uma voz interior me disse:
- É sua hora de ouvir.
- Resolvi seguir o conselho.
- Sou estúpida por te amar... sou burra por te aliviar das intermináveis tarefas simples... ignorante por ignorar-me para que possas crescer... idiota por esperar de ti, uma flor, um carinho, um beijo amoroso... imbecil por acreditar que exista um milagre que possa te transformar em mosca, quem sabe assim possas ver quem realmente sou.
Aquilo veio direto ao meu coração.
Enquanto as horas passavam, pude ver o empenho e dedicação com que minha eterna namorada cuidava do que é nosso.
Desesperadamente voei tentando me livrar daquele estado de inseto. Voei em frente ao ventilador ligado e fui arremessado contra a parede, voltando a ser eu.
- Chuta, chuta... faz o gol. – Gritava o amigo de futebol.
Então corri, corri tanto que sai da quadra, do ginásio. Corri em direção a minha casa, roubando todas as flores que encontrava pelo caminho.
Ao chegar abri a porta com tanta suavidade, que ela nem percebeu.
- Feliz dia dos namorados, querida.
Estou agora vivendo o desdobramento daquela atitude.

Brandt Acosta
Enviado por Brandt Acosta em 15/09/2007
Código do texto: T654140
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Sobre o autor
Brandt Acosta
Bagé - Rio Grande do Sul - Brasil, 55 anos
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Brandt Acosta