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Lá em Quixadá

Hoje eu andava despercebido na avenida grande da grande Fortaleza, olhava os carros passarem brutos, intocáveis, sem muito se preocuparem com nós, os pedestres. De repente vejo uma placa de um carro: QUIXADÁ - CE. Uma reviravolta de sentimentos me invadiu, e foi o eu que saiu de dentro para fora que me arrastou até minha Quixadá.
        O Sol lindo na barragem do Cedro, o açude mais antigo do Siará Grande, enconde-se rápido, é o dia, na quase pacata cidade, que se vai, mas ainda consigo enxergar a colossal Pedra da Galinha, a choca, o histórico monolito que representa a Quixadá onde quer que eu esteja. O açude intimida e me mostra o pequeno que sou.
        Ando um pouco, e mais um pouco, até que chego ao centro da cidade quase grande. As pessoas me olham de soslaio, acho que não me reconhecem, também não deviam, não sou tão conhecido assim, não sou tão evidente, talvez seja esse um erro que me acorreu, não ter mantido os laços fraternos na minha terra natal.
        Chego à Catedral, de um cinza desvanecido, com seus vitrais monocromáticos, que não expressam tanta beleza, e uma onda gigante de sensações nostálgicas me abateu, minha infância, jogando bola no pátio da Igreja e sendo expulso pela sacristã, andando de patins na calçada da Igreja e sendo expulso pela sacristã, indo à Missa e sendo expulso pela sacristã, enfim Estelita, a sacristã, essa sim, teve um trabalho grande comigo, e hoje somos amigos, ela bem mais provada pela vida e eu, começando a perceber que a vida passa rápido.
        Atrás da Grande Igreja principal está a minha casa, a número 38 de uma rua também pacata, e foi assim que eu cresci, acostumado a ver os fundos da Madre Igreja, quadradona, acinzentada, quase sóbria. E vem à porta uma senhora serena, de um sorriso claro e aconchegante, minha linda avó. Bença vó? Deus te abençoe, meu filho. Cadê o vô? Na padaria, e onde que ele deveria estar? É verdade, meu avô vive pro trabalho, vive pra nos dar exemplo, vive a vida porque dela gosta.
        Entrei...Bença mãe? Deus te abençoe. E o Thiago, chegou do trabalho ainda não? Que nada, foi pra Faculdade. Ai é mesmo.
        O tempo é uma roda que roda, roda, roda, e não arreda o pé, nem pensa em parar, ele não dá trégua. E quanto mais pensamos nisso, mais ele avança, cabe a nós saber vivê-lo e não se desencantar.
        Minha Quixadá não mudou muito, tá crescendo, é verdade, mas o ar interiorano ainda predomina, as conversas de calçada com as cadeiras de balanço rangendo, e as vidas alheias sendo analisadas, e bem analisadas. As praças ainda acolhem alguns casais de namorados, as ruas ainda não são tão invadidas por carros, as bicicletas e as motos, essas são as que mais se apresentam nas ruas quase largas da cidade.
        Uma buzina aguda me assusta, e percebo que estou de volta a avenidade larga da Fortaleza grande. A placa já passou bem depressa, e tantas outras passam. Sinto-me bem, por ter visto a cidade que me serviu de berço, sinto até o cheiro do leite mugido, do pão fresco na mesa da cozinha, o frio do chão, o soar da água guardada no pote, enfim, sinto a felicidade de sonhar acordado mesmo quando tudo corrobora pra não, vivo rápido, num ritmo frenético da metrópole que me encerra. Que a bela Quixadá quase grande não se perca nunca na minha memória tão tomada pela labuta árdua da Fortaleza Grande.
Marcelo Viana
Enviado por Marcelo Viana em 19/09/2007
Código do texto: T659603
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Sobre o autor
Marcelo Viana
Fortaleza - Ceará - Brasil, 34 anos
13 textos (613 leituras)
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Marcelo Viana