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O SAQUINHO DE LEITE!

             Era final de tarde sai de casa para uma caminhada, como tantos cidadãos fazem no dia-a-dia. Quando a vi, sentada na calçada, na esquina da avenida. Encolhida, maltrapilha, segurando nos braços uma criança – seu filho, suponho – de pouco mais de um ano. Da criança, toda envolta em panos, pouco mais aparecia do que a pequena face.

“ Moça, compra um saquinho de leite pra mim?”  pediu com naturalidade, como quem pergunta as horas.

Seu rosto, apesar de judiado pelas privações, era bonito.

Trinta anos, não mais.


Concordei com seu pedido, e, enquanto me dirigia à padaria próxima fiquei imaginando sua história. O que uma moça fazia com uma criança nos braços, sozinha, abandonada pelo pai da criança. Sumiu, deixando a criança e todo resto para trás? E ela sem ter como sustentar fica por aí, pedindo ajuda, sem emprego!

Talvez sua história fosse outra, mas que diferença faz, pensei, enquanto comprava o  leite. O fato é que ela está lá fora, com uma criança no colo, com frio e fome. Comprei mais alguns mantimentos, mandei colocar tudo numa sacola plástica e saí. “ Ainda bem que continuam com sacolas plásticas pois se fosse pacotes iriam rasgar, com certeza, mas e o meio ambiente?” – Pensamento bobo....a mulher está lá fora esperando o leite... – E se estou aumentando o “lixo humano da sociedade” com esse gesto? Azar....a criança está lá precisando de leite...

Ela recebeu a sacola com os olhos arregalados, imaginando o que haveria lá dentro e agradeceu com uma bênção.

Fui caminhar sem olhar para trás, sentindo-me envergonhada. Por dar tão pouco, a quem precisa de tanto. Envergonhada por fazer parte de uma sociedade, que deixa mãe e filhos ao relento, envergonhada por viver em um mundo tão injusto.

Continuando a caminhada dei a volta e passei novamente ao seu lado. Ela já havia examinado todo o conteúdo da sacola e estava sorrindo. Percebeu que eu a olhava , sorriu. Um sorriso doce de agradecimento, como quem sorri para um amigo querido.

Me agradeceu por tão pouco, ficou feliz em receber tão pouco, quando na verdade era de seu direito esse pouco, pelo menos o “necessário diário”   para sobreviver com dignidade o resto de seus dias....
Deborah Portela
Enviado por Deborah Portela em 20/09/2007
Reeditado em 23/09/2007
Código do texto: T661142

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Sobre a autora
Deborah Portela
Matelândia - Paraná - Brasil, 44 anos
43 textos (2715 leituras)
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Deborah Portela