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NUM DIA DE FINADOS

[REFLEXÕES]

Eu estava na fase entre criança e adolescente. Tinha então uma família que não era muito grande, mas também não muito pequena. Para o feriado de Finados vinha muita gente, adultos e crianças, todos parentes. Nesse dia a ordem era acordar, reunir a família e ir ao cemitério. Eu não gostava muito daquele chamado passeio. Mas não tinha voz ativa e era obrigada a acompanhar, mesmo porque ninguém ficava em casa. Todo o mundo entrava nos carros, entre flores e velas, a criançada sempre brigando pelo lugar à janela. Sair a caminho do cemitério, que era bem distante, era uma festa pra mim. Assim que chegávamos, eu já era avisada de que a brincadeira acabara, não devia falar alto, nem mesmo rir. Eu obedecia, mas tinha sempre a sensação de sentir um certo desprezo por aquele comportamento que me cheirava a falsidade e que os grandes chamavam de respeito. Pois bem, eu entrava no esquema e respeitava...

O túmulo de minha família era antigo e ficava bem próximo à entrada. Ali chegando, os adultos ficavam um tempo rezando e depois começavam a arrumar as flores, a acender as velas, rezavam de novo e choravam. Era tudo igual a cada ano. Eu aproveitava o momento em que ninguém me dava atenção e me distanciava um pouco, ficava olhando a cena. Não entendia muito aquele simulacro de ritual. Lembro-me que me vinha uma sensação de culpa por não chorar por um avô que não conheci, por uma bisavó que morrera há tantos anos, por uma irmã de mamãe que morrera nenén. E a sensação de culpa aumentava quando eu pensava que nem conhecia a morte, nunca perdera alguém de quem gostasse. Meu tio muitas vezes se afastava comigo. Não chorava e até se permitia uma ou outra brincadeira ou uma piadinha de leve. Ele era avesso à morte e brincava com ela para disfarçar. Ao primeiro sinal de comando de minha avó, a gente se juntava ao pessoal e ia embora.

Chegando em casa, cada um assumia sua tarefa: a limpeza ligeira, a preparação do almoço, mais complicada um pouco, pois havia muita gente em casa. Os homens se juntavam para tomar aperitivo, as mulheres se apressavam na cozinha, a criançada brincava. À mesa, geralmente farta, era uma festa. Todo o mundo falando ao mesmo tempo, todos alegres e risonhos. Ninguém diria que era a mesma turma que há poucas horas chorava. E os nomes dos "finados" ninguém mais falava. A não ser vovó que de quando em quando observava: "Seu pai gostava desse arroz" ou "Seu avô adorava bacalhoada". Ela enviuvara há quase vinte anos e não se esquecia de comentar cada detalhe que lembrava vovô. Quando eu a questionava sobre qualquer atitude, ela sempre dizia: "Faço assim porque é assim que seu avô gostava".

Vovó sempre dizia "seu avô", os outros diziam "seu finado avô". Eu tinha uma implicância com esse termo como tinha implicância com o dia que era chamado "de finados". Mas nem sabia por que... Um dia, perguntei à vovó por que diziam "seu finado avô". A explicação foi singela: "porque ele morreu, quer dizer que se foi, findou". Aquilo ficou martelando em mim por vários dias: morreu, acabou... morreu, acabou... Voltei a questionar, pois vovó me explicara que os mortos tinham a vida eterna, então qual o motivo do dia ser de finados? Vovó se embaraçou e acabou me dizendo que se convencionou chamar assim. Calei a boca, mas não fiquei satisfeita. Era, na minha cabeça, uma contradição.

E esse mesmo ritual acontecia todos os anos. Tudo sempre muito igual. Quase todos rezando e chorando, eu me distanciando e indo passear no meio de túmulos, só túmulos. Achava um certo masoquismo quando via os adultos chorando de novo a cada ano. Eu ainda não entendera isso. O dia era feito para que os vivos se lembrassem dos mortos. Para lembrar uma pessoa amada era preciso olhar para um túmulo, acender velas e colocar flores? Até que aconteceu algo diferente. Eu já adolescente, mas mais madura, carregava mil interrogações na mente. chegava a achar cômico aquele ritual, a rebelde em mim crescera comigo e eu já não tinha muita tolerância. Respeitava meus parentes, sabia que eles não tinham tanta consciência do que diziam e faziam, meio automaticamente, e até percebi que alguns estavam ali forçados por falta de coragem de expressar seus sentimentos. Acho até hoje, mas não tenho certeza, que não era eu a única rebelde da família... Eu estava distante enquanto o pessoal acendia as velas e arrumava as flores. O túmulo estava ficando bonito. Mas um dos vasos ficou vazio e, a um sinal de minha avó, mamãe foi à portaria do cemitério, onde uma carroça vendia flores, e comprou um lindo buquê. Voltando, entregou-o à vovó que o acomodou muito bem no vaso vazio e sorriu satisfeita. Nesse momento, a pergunta se formulou em minha mente: "quantas vezes eles deram flores para aqueles mortos quando vivos?" E tudo ficou muito claro pra mim.

Ao chegar em casa, anunciei à família: "Não contem mais comigo. Eu não quero mais ir a cemitérios." E não fui, a não ser para enterrar meus mortos. Antes disso, dei-lhes muitas flores, sempre recebidas com beijos e sorrisos. E quando enterrei o último, me senti com o dever cumprido. Hoje não preciso de um dia específico para festejá-los. Dia de Finados continua soando contraditório, pois os mortos que amei continuam vivos em meu coração e... todos os dias. Da mesma forma, sei que, ao partir, continuarei viva no coração de quem me ama, sem me acabar e sem precisar de túmulo, velas, rezas e flores...

Sim... as flores... Já recebi em vida!
Sal
Enviado por Sal em 02/11/2005
Código do texto: T66465
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Sobre a autora
Sal
Marília - São Paulo - Brasil, 78 anos
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