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Sobre conhaque e um espaço vazio.

Tinha um par de tênis brancos (?) imundos; era a única coisa, incluindo aí pessoas, nomes, números, objetos compromissos e todo o resto; que nunca esquecia. Um típico fodido, que vivia sua vida o mais intensamente quanto podia, e por incrível que pareça, apesar de quase nada nesse mundo o agradar por completo, ainda desfrutava de alguma felicidade ( seja lá o que isso signifique). O tipo de porra-louca sem limites, não conhecia fronteiras. Conhecia desde os mendigos que “moravam” perto de sua casa, até os filhas da puta mais podres de ricos da sua cidade, com salas com lareiras daquelas que nunca são usadas, maiores que seu quarto; caretas straight-head e também os junkies que satisfaziam-se com doses nada moderadas de baque na veia. Diziam no ‘sem-noção’ e ‘louco’, por tratar a todos como iguais. (o que por incrível que pareça é real).
Ele mesmo estava pouco se fodendo pro que os outros pensavam. Ao menos não transparecia. Era sensível a tudo, mas detestava fraquejar. Lutava contra um cenário apático. Sua cidade “turística”, na época das chuvas, exibia belíssimas poças d’água, que se multiplicavam e multiplicavam e multiplicavam-se ao cubo, dando um ar quase veneziano ao lugar. Ah, não podemos esquecer da PRAÇA, onde os velhos se reuniam para fazer rolo em relógios e canivetes e bengalas e rádios de pilha e tudo o mais que pudessem carregar. E claro, o tradicional ritual de jogar milho aos malditos pombos.
O programa favorito da população desse lugar peculiar era, nessa ordem: Falar da vida alheia; ir à igreja (pra falar da vida alheia), beber até cair nas centenas de botecos que ali existiam (depois de muito comentar a vida alheia), e por último, falar da vida ALHEIA.
Escolheu os botecos, mas saía com a bebida antes que alguém viesse lhe contar a última sobre algum familiar seu.
Era livre. Por isso incompreendido. Mesmo os mais próximos estavam longe de entender. Entendimento por completo é utopia. Sua mãe o amava mas não o entendia. Aceitava.
Seu pai talvez entendesse, ou percebesse. Mas era ocupado e atormentado demais com seus próprios demonios, e de tempos em tempos, ao senso comum e limitado cedia, tornava-se repressor, e todo o pouco que conseguia de volta após a longa ausência, destruía. Fúria, a fúria, os gritos e tapas e pontapés, traziam lembranças desagradáveis de outros tempos. À isso, nosso amigo alienava. Não queria, não precisava.
O perturbava tais reminiscências. E o que era doce e acessível tornava-se distante, e seu sarcasmo e ironia nesses dias, ardia.
Sob pressão. Tenha um emprego. “Nunca se canse, você não tem esse direito”. Acordava cedo, transitava no limite, chegava aos cacos na aula e ainda assim rendia, era querido. Queria.
Mas nos últimos dias...a apatia o consumia. O descaso e todo resto que não entendia o tornaram...gélido. Nada podia fazer. Apenas assistia. A semana rastejava...um dia, dois dias...só fazia contar. Quanto tempo resta?
Se agora vivia? Terminava a semana sábado e começava domingo. Meia-noite e um morria. Não o vejo, fazem dois meses daqui à seis dias. E agora, do alto de toda essa decadência, com consciência dos horrores do Mundo me pergunto: Aquelas virtudes, a boa vontade e o ânimo, se perderiam???
Agora sem ele, que é parte de mim, o máximo que consigo é escrever nesse dia frio, depois de uns tragos de conhaque.
Nem gritar, como ele gritaria. Agora me calo, já é outro dia.
Vazio.
marvin rosa
Enviado por marvin rosa em 26/09/2007
Reeditado em 27/09/2007
Código do texto: T668954

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Sobre o autor
marvin rosa
Santa Isabel - São Paulo - Brasil, 29 anos
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