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SIMPLIFIQUEI!

Antigamente, num tempo não muito distante, minha vida era complicada demais. Dessas complicações minúsculas que a gente faz acontecer, apenas por não conhecer uma outra forma de viver. De simplificar. De ser livre.
Eu me lembro do corte de cabelo, que precisava ser escovado, a cada vez que fosse lavado. Isso me consumia pelo menos 3 horas semanais no cabeleireiro. Sem contar que, como o cabelo era longo, as frequentes tinturas exigiam um profissional especializado. Junte-se a isso a sessão semanal de unhas e a sessão mensal de depilação. Simplifiquei: cortei o cabelo bem curto e assim não preciso mais de escovação, aplico a tintura em casa, numa cor muito próxima ao meu tom original - apenas para cobrir os fios brancos- e a sessão mensal de depilação foi substituída pela velha lâmina de barbear. Eu sempre pensei, como todo mundo pensa, que esse método de depilação engrossa os pelos. Tolice, não engrossa. O que acontece é que, como a lâmina corta os pêlos pelo meio, e não pela raiz, quando nascem ficam espetados por uns dias, e parecem ter vindo mais grossos. Não vieram. Estão tão macios quanto eram, quando nascemos. Experimente deixar crescer e se verá a pelagem macia. O que acontece é que ninguém deixa crescer para conferir. Soube disso quando fui fazer depilação a laser, na virilha. Fiz amizade com a médica. No meio da sessão tortura, perguntei se ela fazia em si a depilação a laser. Ela disse que não, que não via nenhuma dificuldade em passar a lâmina, todos os dias, debaixo do chuveiro. E para completar, deu-me uma aula, para que eu entendesse porque os pelos não engrossam. Fiquei muito grata pela informação e nunca mais voltei. A sinceridade lhe custou a cliente. Até hoje a secretária me telefona convidando para fazer novas sessões, mas é tarde: jamais vou deixar de ser cliente da Gilette do Brasil que é barata, não dói, e não encrava. Simplifiquei: de tudo isso, agora só manicura e pedicure. Por enquanto.
Também simplifiquei o estilo de roupas: calça jeans vai bem com tudo. Troca-se a blusa por um tecido mais ou menos elaborado, conforme a ocasião e dá para ir do supermercado ao cinema, do trabalho a um jantar. Como não vou nem ao cinema , nem ao jantar, fico só com o trabalho mesmo. As ocasiões especialíssimas são raras, quase não vou a esses eventos. E se preciso mesmo ir, apelo para um curtinho básico. Aboli os conjuntos de linho, as calças sociais, os vestidos de seda e os vestidos longos que mofavam no armário, esperando a próxima ocasião. Doei peça por peça. Meu guarda roupa de 18 portas ficou vazio. Que alegria ter um guarda roupa vazio para guardar nada. A alma, esse compartimento tão carregado de inutilidades, está realizando o processo de desapego que a sabedoria recomenda. Toda vida tem um Apocalipse e o meu já começou.
Simplificado também foi o cardápio da mesa nossa de cada dia: arroz, feijão, carne, salada e verdurinha quente. Que delícia. Variedades, só circunstancialmente. Antes todo dia era dia de orgias gastronômicas. Nunca fomos obesos porque a genética colaborava. Mas que era uma comilança e tanto, isso era... Cheguei a ter uma pessoa só para cozinhar. Hoje, a cozinheira sou eu. Amo ser a cozinheira da casa. Amo o cheiro do café passado na hora, o feijão que eu tempero como ninguém, a saladinha verde cujas folhas eu escolho. Cansei de comer o que os outros escolhiam. E entre comida de atleta e comida de gordo, fico com a de atleta. Sorry.
Simplifiquei. Um pouco por contingências econômicas, um pouco por desencanto, um pouco por sabedoria, um pouco por lucidez, um pouco pelo espírito, e tudo isso, somado resultou em uma opção de vida mais leve, mais arejada, mais despojada. Com a simplicidade, tudo ficou mais simples. Sem frescuras. É uma ironia: quando se aprende a viver está quase na hora de morrer
Ana Ribas
Enviado por Ana Ribas em 27/09/2007
Reeditado em 08/11/2008
Código do texto: T670400

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Sobre a autora
Ana Ribas
Cruzeiro do Oeste - Paraná - Brasil
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Ana Ribas