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O CISNE E O PATINHO FEIO

Vez por outra, eu me deparo com convites que recebo com muito carinho, mas recuso com idêntica determinação. Quase toda semana, isso acontece. E sempre que acontece, ocasiona um burburinho dentro de mim, um certo ritual perturbador. Começa com uma pressão interna, que logo é abafada pelos meus próprios argumentos. Uma luta no mais íntimo. Uma parte de mim, ainda teima em dizer "você tem que ir", enquanto a outra grita e esbraveja "você não tem quê nada". Passei tanto tempo da minha vida "tendo que ir". Tive que ir, quando era recém casada, quando meus filhos eram crianças, quando chegavam as festas de final de ano, quando surgiam os convites para jantares, casamentos, e acontecimentos sociais, tive que ir como cidadã, como mãe, como esposa. Eu sempre fui, e no entanto, paradoxalmente, nunca fui. Sempre estive presente de corpo, ausente de alma e espírito. Uma pessoa sociável, deve sê-lo na expressão deleitosa da palavra. Não me lembro de ter experimentado esse sentimento. Na infância e adolescência, jamais fui aquela que escolhe estar em grupo, que divide gargalhadas, que aprende as últimas piadas, que senta na fila do gargarejo, que engrossa a corrente do momento. Acabei trazendo isso para a idade adulta. Por que seria diferente no limiar da velhice? Mesmo nunca sendo essa, tentei ser. Fiz o meu esforço. Participei de todos os movimentos que a vida me ofereceu sob o rótulo da fraternidade, fui socialmente e politicamente correta, organizei encontros, jantares, seminários, reuniões, enquanto trabalhadora na área da educação, marquei encontros semanais com o liturgicamente sagrado, e de quebra, ainda me engajei na onda dos que vivem curtindo a vida, de bailes a carnavais. Eu tentei. Tentei como o maratonista tenta ganhar a prova, até gastar o último átomo de energia, em cada célula do seu corpo. O resultado sempre foi um tremendo cansaço. Cansa profundamente ter que viver em função de um grupo social, religioso ou cultural, quando a maré interna teima em escolher a direção oposta ao coletivo. Por isso, quando a vida me deu uma grande rasteira e me jogou de quatro no chão, levantei decidida a me brindar com o direito de escolher a minha forma de viver. Era o mínimo que eu podia fazer por mim. Eu e o Ivo, combinamos isso. Ele me disse que, se possível fosse, me daria o céu, para voltar a me ver feliz. E eu lhe disse, que ele não precisaria buscar o céu, desde que me permitisse viver na terra da forma como me convinha. E eu faria o mesmo, em relação a ele. Fizemos o pacto com muito amor. Muito amor. Um amor que dura até hoje. Um amor feito de paixão, carinho e respeito com a individualidade do outro. Não renunciamos ao amor que devotamos um ao outro, renunciamos à posse que alija, que fere, que abre crateras internas e silenciosas.

Viajei sozinha para muito longe, visitei muitas paisagens. Eu sou uma mulher de paisagens. A paisagem me comove mais que tudo. Um por do sol me fala mais alto do que o grito das vozes de uma multidão. Sou um ser anti-social. O que não significa que seja contra a sociedade. Amo as pessoas, tenho pelos seres humanos uma grande soma de afeto. Eu me dou quando requisitada, mas não me requisito para dar. Não vou em busca do outro, porque tenho consciência de que os seres são universais, mas têm preferências ideológicas. Não creio que sou uma boa companhia para os "normais." Mas se o outro me busca, certamente, me acha. Eu não me fecho para o diálogo, desde que o diálogo tenha sintonia com o céu. Meu coração ainda ama o ser humano, mas o céu tem precedência sobre a terra. Dai surge a grande dificuldade. De alguma forma, o ser humano pendeu para um lado e eu para o outro. A minha busca é pelo sagrado. Profano para mim é tudo quanto não me remete a Deus. Eu não aguento viver nem mesmo uma hora sem tocar em Deus, sem mencionar as suas misericórdias, sem render graças ao meu criador. Um discurso que exalta o homem é para mim o bronze que soa. Uma reunião humanística é um címbalo que retine. Experimente ficar ouvindo durante horas, o bronze soando e o címbalo retinindo nos tímpanos e você entenderá como me sinto, nessas ocasiões. Acho tudo de uma inutilidade completa. Graças a Deus, eu ganhei o direito de ir e vir quando me convém. Fui alforriada pelo meu marido, pelos meus familiares, pelas minhas filhas. Até mesmo a sociedade me alforriou. Sinto-me amada pelo povo da minha cidade. De alguma forma, eles me compreendem e me aceitam como sou. De alguma forma, quando quebro o padrão e compareço a um evento,sou recebida com tanto amor que o meu coração se comove. Que mistério! É um mistério que as pessoas "normais" sintam afeto por um pobre ser espiritual.

Nestes últimos tempos, fomos convidados para ser padrinhos de casamento e o Ivo explicou com a maior naturalidade, que agradecia muitíssimo, que se sentia honrado com a escolha, mas que, infelizmente, a Ana não o acompanhava a festas, a não ser em casos excepcionais. Também fui homenageada em eventos a que agradeci, mas não compareci. Eu não recebo glória dos homens. Fui alforriada. A glória dos homens me faria escrava de uma imagem que não quero mais cultivar. As máscaras cairam. O Ivo, é a minha ponte com o mundo dos felizes e dos satisfeitos. Ele continua politicamente e socialmente correto. Ele vai e,quando volta, volta feliz como o cisne no meio dos cisnes. Eu sou o patinho feio. Somos um casal de cisne e patinho feio e nos completamos em nossas diferenças. Vê-lo feliz, me faz feliz. Ver-me feliz o faz feliz. E dessa forma atípica, vivemos e nos deixamos viver. Cada um na sua e Deus na nossa.




 
Ana Ribas
Enviado por Ana Ribas em 28/09/2007
Reeditado em 08/11/2008
Código do texto: T671798

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Sobre a autora
Ana Ribas
Cruzeiro do Oeste - Paraná - Brasil
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Ana Ribas