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As portas

Estava velho. Em seus cinqüenta e dois anos de vida, já não servia mais para o mercado de trabalho. Em todas as portas que batia, o não era a maior de todas as certezas. Pensando bem, uma possibilidade superior a noventa por cento. Embora velho para o ingrato e – em sua visão –, traiçoeiro mercado de trabalho, era dono de um vigor incomparável para sua geração de quase meio século de experiência. Uma experiência que, a essa altura da vida, não servia para muita coisa, ou melhor, servia sim! Servia para ser sugada por muitos que lhe fechavam as portas, sem a menor piedade. Aliás, não era disso que ele precisava. O que ele exigia, era o reconhecimento que, com toda certeza não viria e se viesse seria algo, talvez, muito aquém de um mísero óbolo – pra não dizer esmola.
Por incrível coincidência e, com o perdão da rima fácil, o Seo Zé era mais um Zé Qualquer e neste caso, novamente com o perdão, só que desta vez, da coincidência, o Seo Zé era o velho conhecido José da Silva. Uma vítima da desumanidade social, do consumismo e do materialismo globalizado, insano e recheado dos resquícios da discriminação e da segregação, próprios das pessoas desprovidas da visão do amanhã. Não foram poucas, as vezes que, ao olhar os três filhos adolescentes, José da Silva correu ao quarto e, abraçado à esposa, chorou o sabor amargo do desemprego. Foram choros ancorados na força indestrutível da honestidade e retidão de caráter, herdados de uma família estruturada em princípios cristãos inabaláveis. Mas ele não desistia e marchava para novo combate a cada nova manhã.
Tentou de tudo. Servente de pedreiro, jardineiro, ajudante de caminhão, limpador de caixas d’água e de piscinas. Todas sem registro em carteira, sem garantia de aposentadoria e o que era pior, sem plano médico. Isso tudo sem falar do salário mirrado, que mal dava para pagar o coletivo até o local em que iria desenvolver suas atividades, sempre em lugares diferentes e muito distantes. Após dezenas de tentativas frustradas, Seo Zé curvou-se, enfim, a uma prática que não é muito bem vista pela sociedade, mas que em seu íntimo pode ser exercida com honestidade. Escolheu, nas imediações de um supermercado, um ponto – até então livre –, comprou um colete e foi trabalhar como guardador de carros. Em apenas uma hora, entre sins e nãos, desvendou a verdadeira cara do ser humano.
Trabalhador, dedicado, dono de uma reputação ímpar, respeitador do próximo e profundamente fiel à família, passou por cima de todas as ofensas. Toda vez que ouvia alguém chamá-lo de vagabundo, o velho e conhecido José da Silva abaixava a cabeça, agradecia e abençoava seu agressor com a mesma intensidade que agradecia e abençoava quem o pagava pelo trabalho honesto que ele desenvolvia e desenvolve. Hoje, embora com as dificuldades normais de todo chefe de família, ele já conseguiu estabelecer-se como autônomo. É um prestador de serviços – coisas da burocracia. Está pronto para voltar a recolher o INSS. Faz planos para aposentar-se até os sessenta. Seu sonho maior é um terreno ao lado do supermercado. Tem vagas para cinqüenta carros. Os filhos vão tocar o negócio. Um vai administrar, o outro será o manobrista e mais novo vai atender telefone e a portaria.
fiore carlos
Enviado por fiore carlos em 29/09/2007
Código do texto: T673079

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Sobre o autor
fiore carlos
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