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Uma Lygia, uma chuva

          Chovia... A chuva caia do céu e molhava as ruas daquela cidade, limpava e escorria todo o cinza e sujava o cidadão da mais escura água. A mesma chuva enchia os becos escuros, enchia as cacimbas enchia os córregos, enchia a alma da criança que saia a brincar nas bicas que jorravam água como um corpo perfurado jorrava sangue.
          Lygia andava pelas ruas noturnas e chuvosas daquele setembro sombrio, para ela todo mês era um mês sombrio, vivia do seu corpo, e morava sob as estrelas, o estado deu as costas para ela e ela deu as costas para vida. A chuva molhava seu rosto frio, a maquiagem borrara, a sombra forte que usava sob os olhos agora assemelhavam lagrimas negras.
          Lygia caminhava com as mãos envolta do ventre tão gasto, já não lembrava quantos anos tinha, já não se lembrava de seu nome completo nem do que teria jantado ontem, se é que jantou. A vida de Lygia se tornara um blues triste tocado com a melodia mais pessimista de uma guitarra, Lygia já não era uma pessoa e sim um brinquedo que às vezes chorava.
          Há tempos Lygia não dormia, seu trabalho era noturno, e não conseguia dormir de dia, passava a noite na beira das ruas e por fim em uma cama alheia, essa era a vida de Lygia.
         A chuva cai mais forte, castiga o solo, o barulho em telhas de amianto assemelha-se um tiroteio, a água escorre pelos bueiros e em casos pela poluição já não escorre mais. Lygia esta sentada na calçada, sozinha, triste, a chuva esconde as lágrimas, a chuva molha seu vestido com as pontas rasgadas pela fúria de seus clientes, a chuva faz a água da sarjeta correr como um rio bravo procurando desaguar na imensidão marítima, a chuva faz Lygia lembrar de momentos de felicidade...
         O saldo da noite fora trezentos reais, ela fica com vinte, o resto  é do Cafetão... Edilmarês, ou apenas Ed, um homem que não deveria ser homem, um ser que não é, uma besta sob pele carne ossos e unhas... Em poucas palavras: Apenas mais um ser humano.
         Lygia já não sentia mais nada, nas primeiras vezes, ou doía, ou era bom, Lygia apenas está lá e nada mais... Lygia já enfrentou senadores, diretores, juízes, e seus filhos, a maioria já casado, a maioria doentia... A vida de Lygia e fazer o que mandam por mais louco que pareça.
        A chuva molhava os pés de Lygia, a chuva molhava tudo e todos. Lygia olhava para dentro das casas: “Todos felizes e jantando”, Lygia olhava os rostos felizes das meninas, de súbito lembra que sua idade era de apenas dezesseis, Lygia sempre esquecia para não ter de lembrar.
        Lygia não falava muito, há tempos não sorrira, há tempos não sabia o significado da palavra “vida”, pois sabia que tudo que vivem os homens não é vida é repetição.
        A chuva caia com força, a chuva era o sentimento de Lygia que aflorava na mais densa camada de dor, Lygia era um ser forte apesar da sua fraqueza, Lygia era uma mulher, menina, criança.  A água tinha gosto de fumaça, Lygia via seu reflexo em uma vitrina: Seu rosto fino, branco como neve, seus cabelos cortados no estilo channel, mas grosseiramente, sua sombra embaixo de seus olhos já borrada com a chuva, seu batom negro já borrado com os beijos da noite, seu corpo magro, esquelético já sem vida, sua alma enfunada em água da chuva. A vitrina também esboçava o consumo, por trás de sua imagem, tinha colares de perolas, bolsas caras, câmeras digitais, TVs de plasmas, sons e computadores... Lygia lembrava o porquê não se lembravam dela: Os seres humanos tinham que comprar essas coisas primeiro.
       - O preço desta câmera digital é duas vezes um programa meu – diz Lygia para a chuva que caia escorrendo na vitrina e em sua alma.
         A noite era uma tempestade, a chuva vinha com força destruidora sob aquela cidade, os trovões eram assustadores, e os raios iluminavam a noite... Lygia não se importava, o que sofria nas noites frias deste povo frio compensaria uma chuvinha, alias a chuva é sua companheira esta noite.
         As ruas estavam completamente desertas, os carros já não passavam mais, suas “companheiras” há tempos já se tinham se recolhido, apenas Lygia mantinha-se na chuva observando o nada e o ninguém, Lygia sabia tão bem quanto qualquer um que ali ela estava livre mesmo que seja apenas por algumas horas, ou por uma noite de paz.
          A burguesia cuspia na sua cara quando não precisavam dela para satisfazer-lhes. A nobreza cuspia na sua cara quando não precisavam dela pra satisfazer-lhes. Os pobres estavam ao lado dela sendo cuspido e sendo convocados para satisfazer-los, isso se chama mundo real, isso se chama o que não passa na Televisão, Lygia sabia disso, mas Lygia já não tinha as forças para lutar, pois Lygia as guardavas para alguma noite com três ou quatro...
           Lygia andava pelas ruas já com dificuldade, Lygia olhava para as vitrinas e as vitrinas olhavam para ela, Lygia arrastava seus pés pelas águas empoçadas, Lygia morria aos poucos, Lygia afogava-se em sua vida e naquela companheira chuva, Lygia não perguntava a si onde estaria daqui a cinco anos por que ela não guardava o nome de todos os motéis.

Rhuan Rousseau
Enviado por Rhuan Rousseau em 29/09/2007
Código do texto: T673460

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Sobre o autor
Rhuan Rousseau
Fortaleza - Ceará - Brasil, 26 anos
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Rhuan Rousseau