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A CIDADE DOS QUE SE FORAM

Esta cidade fria, feita de mármore e concreto se perdem ante o olhar na entrada do portão. No pensar soa sinistro. No olhar, algo misterioso e nada de assustador nos mausoléus que se amontoam dia após dia. Talvez um museu de ossos que fizeram parte deste mundo. O único mais visitado em apenas um dia do ano. Nesta cidade de mármore está a única certeza de nossa vida e a única que não aceitamos. Nela a sombra vaga dos que se foram, e uma fonte inesgotável de lágrimas a rolar.

Entrei nela apertando entre os dedos cinco botões de rosa vermelhos. Vi nas residências de mármore frio as mesmas sombras agitadas na saudade. Único sentimento sustentável além da dor que muitas vezes o tempo não apaga. São rios que se cruzam e todos os lábios a beber-lhe das suas águas. Vi tantas flores! Um jardim que se movia nos rios que se cruzavam. Era belo... As cores das flores, mas inimagináveis os sentimentos dos que andavam entre os mármores polidos.

Nos espaços estreitos parentes e amigos vão e vêm em mais uma visita anual. Em cada rosto os sinais da saudade e a dor transformada em soluços doídos, exilados durante o ano para implodir sobre o mármore sem vida. Nas mãos, as flores que pousam em cerimônia onde supõem ainda estarem aqueles que amam. Talvez o pó, ou nem isso... Porque o tempo apaga tantos vestígios. O vento passa e move as flores nos braços que se pendem a tocar a pedra fria. Toca-as como se tocasse o corpo do ente querido e as mãos se tornam trêmulas à ilusão do calor de uma pele antes tão conhecida e o pensamento se perde numa dimensão desconhecida para os que ainda vagam nesta vida. Mas que vida existe ali naquelas lápides imóveis? Contudo não importa. A ilusão lhes traz essa vida ainda que imóvel e a cor mais bela aos retratos desbotados e fixos no mármore frio.

Caminhei entre os mármores olhando os semblantes nas pedras sem vida. Muitos conhecidos... Muitos parentes e amigos... Alguns semblantes o tempo ousara pincelar a cor amarelada. Outros ainda tinham a cor viva porque o rio que lhes desaguara ainda transbordava. Chorei algumas gotas do rio e vi outras rolarem como cachoeiras nos rostos em sublimes saudades. E me surpreendi olhando o rosto de cada pessoa, descobrindo suas histórias nos gestos marcados. Dor... Saudade... Ou simplesmente uma obrigação diante da sociedade. Mas quem lhes preencherá o vazio deixado por aqueles que ali descansam? Talvez a insistência em não esquecer e sentir sempre o mesmo sentimento de presença que se cruza nessas águas de saudade e dor.

Senti a doce sinfonia entre os que ali estavam para matar a saudade e os que jaziam nos mausoléus. A eternidade era a distância, mas ao mesmo tempo uma proximidade misteriosa! A morte quase sempre aproxima as pessoas. O silêncio diz as palavras que nunca foram ditas e choram-se os sentimentos que nunca foram expostos. Amor... Arrependimento... Perdão. Não importa.

Enquanto caminhava com passos quase sem destino e o olhar perdido nas estátuas geométricas, pensava que um dia também faria parte desta cidade. Habitaria algum desses mármores frios e inertes e teria talvez para mim um destes rios de saudade e dor a desaguar sobre minhas sombras e a molhar o semblante marcado do que fui para aqueles que me amaram e a quem amei; e talvez um ramalhete de flores, ou um botão de rosa apenas, pousada na pedra sem vida.

Meus passos me levaram ao portão e de volta ao mundo dos vivos pensei que a morte é a única certeza e ao mesmo tempo a sátira mais poética e sinistra, porque repele ao mesmo tempo em que dói e traz uma magia quase desconhecida. Mas a dor é mais forte e dói na alma, não na carne. Nessa há antídotos eficazes. Mas o que aplaca a dor da alma? Nunca houve cientista que descobrisse essa fórmula. Olhei mais uma vez a cidade dos que se foram. Senti o silêncio que interligava as almas aos seus entes queridos; vislumbrei o campo florido que ficava sobre os mármores frios. E a saudade... Ah! Saudade...

( Da coletãnea " Escritas e Memórias"

Sonia de Fátima Machado Silva
Enviado por Sonia de Fátima Machado Silva em 01/10/2007
Reeditado em 10/12/2008
Código do texto: T676051
Classificação de conteúdo: seguro
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Sobre a autora
Sonia de Fátima Machado Silva
Coromandel - Minas Gerais - Brasil, 53 anos
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Sonia de Fátima Machado Silva

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