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O Homem e sua Gravata

         
                   Havia pouco tempo que Mário tinha conseguido um novo emprego. Um belo novo emprego num banco! Batalhou muito por esse feito, meses de estudos, preparação intensa, frequentando cursos e mais cursos, especializando-se nisso e naquilo, lendo livros e mais livros, Matemática, Gramática; e todo esse tempo mantendo-se longe do futebol, dos filhos, da mulher e dos amigos. Mas valeu a pena, afinal de contas, o objetivo maior fora conquistado: agora ganharia três vezes mais que o antigo emprego.
                   Comemorou muito. Até convidou os amigos para um churrasco em sua casa. Era pura felicidade. E, em meio a tanta alegria, ganhou um outro presente, uma bela gravata italiana da sua querida mulher.
                   - Agora que vai trabalhar num banco, nada mais justo - comentou a esposa.
                   A felicidade o consumia. Se não bastasse o cobiçado emprego, agora aquela bela gravata. Era muito para um só homem.
                   Assim, apesar de possuir outras gravatas, nenhuma se comparava àquela, que carimbava a sua tão esperada ascensão profissional, sua nova e promissora fase, seu novo status. Por isso passou a amar aquela gravata tanto quanto a sua mulher, seu futebol aos domingos, seus filhos, seus amigos e churrascos, era um amor irreal, avassalador, algo tão intenso que podia causar espanto. E sua mulher não o viu mais com as antigas gravatas, feias, velhas, jogadas.
                    A carregava no pescoço todos os dias. Era vermelha, uma legítima italiana, bem alinhada, digna de um bancário. Passava horas com os olhos colados nela, admirando-a, explodindo de alegria, sentindo-se o o homem mais feliz do mundo.
                    Conquistou tudo o que queria: o emprego, a sua fina gravata italiana, uma linda família, grandes amigos. Que mais um homem podia sonhar? O novo salário, a mulher, os filhos, os amigos e, agora, a sua digníssima gravata!
                     Acordar, tomar um belo banho, barbear-se, escolher a sua melhor roupa e, como toque final, pôr a sua legítima italiana, em seguida tomar o seu delicioso café-da-manhã ( que agora seria breakfest, afinal de contas, trabalharia num banco, tinha que fazer bonito no inglês ), e beijar a mulher, os filhos. Esta seria a sua doce rotina, o seu sonho dourado de outrora agora realidade.
                     Mas um dia, ao acordar, após o banho, a roupa bem alinhada, o perfume importado e a procurar a sua digníssima gravata, notou, desesperado, que ela não se encontrava no lugar que habitalmente ficava. Desespero dos desesperos!
                     Passou a procurá-la, já agoniado. E, ao notar o maridão preocupado, fuçando o quarto, a mulher perguntou:
                     - O que tanto procura, Mário?... Vai acabar se atrasando desse jeito.
                     Ele não respondeu, não queria revelar que havia perdido o presente que ela dera com tanto esmero. O que a esposa diria? Pobrezinha... ficaria descepcionadíssima.
                     Sendo assim, encarregou-se veementemente na procura do objeto... Pôs o quarto de cabeça para baixo, literalmente: revirou a cama, arregalou o guarda roupa, ergueu os tapetes, o criado mudo; fuçando todos os quatro cantos do cômodo. A celeuma estava armada, mas nem sinal da bendita gravata. Onde estaria? Queria desesperadamente saber.
                     Começou a ficar intranquilo, e não queria sair dali enquanto não encontrasse o objeto perdido. E a sua mulher, já transtornada por ver o marido à flor-da-pele, uniu-se a ele na caça. Mas o que ele procurava mesmo?
                     - O meu relógio, amorzinho, o meu relógio... não sei onde ele foi parar... - respondeu ao mesmo tempo em que escondia o relógio no bolso.
                     E, apesar de icentivá-lo a ir ao trabalho sem o relógio, não teve jeito, ele queria porque queria encontrar a tal gra... quer dizer, o relógio... A sua bela italiana. E tinha que encontrá-la... Mas por onde começar?
                     Não encontrando no quarto, passaram para os outros cômodos: primeiro a sala, em seguida a cozinha, os outros quartos, a área de serviço, a varanda, a garagem, o banheiro; em cada metro quadrado da casa. Tudo. Não encontrando nada - nem o relógio, nem a sua gravata.
                     Os três filhos de Mário, que até então iam à escola, passaram a ajudá-los naquela difícil busca.
                     A casa estava irreconhecível. Tudo de pernas para o ar. Era impossível diferenciar a cozinha da sala, os quartos da cozinha, a sala dos quartos. Podia-se encontrar camas nos corredores, sofás na garagem, coecas na tevê, panelas em cima das camas. Definitivamente uma bagunça! Exagero? Para Mário não, era uma questão de honra, mais que isso, era uma questão de vida ou morte.
                     E as crianças desistiram da escola. Mário, visivelmente abatido, atendendo aos apelos da esposa e não querendo chegar atrasado já na sua primeira semana de trabalho, resolveu ir trabalhar, porém a cabeça em sua aclamada gravata. Onde estaria? Não sabia. Já sua mulher continuou em casa junto com as crianças ainda na sôfrega procura do relógio. Não encontraram.
                     O homem e a sua gravata. E para Mário, a gravata era o cartão de visitas, nada podia deixar uma melhor impressão do que uma bem e acabada gravata - como a dele! A presença desse objeto, o seu valor simbólico, sua importância, para o homem é como um cetro para os reis, a coroa para a realeza, a medalha para o atlema. Segundo sua teoria ( a Teoria de Mário ), a gravata é um ornato, uma glória, o coração que bate no peito de um homem!
                     Não havia dúvidas. E aquela que perdera era indubitavelmente a mais fina de todas, pulsava no seu peito a mil por hora. Sentia-se como um rei ao usá-la. O próprio Presidente da República! E sem ela, ele não era mais nunguém, mas somente um mero funcionáriozinho de um banco, mais um medíocre servidor público, sem chances de crescer, sem qualquer faísca de alto-estima, um zé-ninguém, isso mesmo! Mário, O Zé-Ninguém!, um cisco, uma agulha no palheiro, um flagelo, um resquício, um ÁTOMO!, um nada, absolutamente um zero à esquerda!
                     Teoria de Mário: como pode um homem viver sem o seu coração?
                     E naquele dia não conseguiu consentrar-se no trabalho - uma dor de cabeça desgraçada! Quando tentava pôr os pensamentos no trabalho, logo vinha a imagem da sua gravata.
                     Assim que saiu do banco, correu ao seu lar com um único objetivo: caçar, buscar, procurar, investigar, descobrir, achar, encontrar, decifrar; ter de volta custasse o que custasse a sua italianinha. Correu. Correu como nunca!
                    E lá se foi ele.
                    Entrou em casa sedento. Voltou a dar um reviravolta na casa. Procura daqui, procura dali, fuça que fuça, olha lá, vai ali, não achando acolá. Nem mesmo a sombra. Ou qualquer outro vestígio. Apesar de barafustarem cada milímetro da casa, ele, a mulher e os filhos não conseguiram nada. Até que, exaustos, estrebucharam-se no sofá, caçadíssimos, completamente esgotados.
                    Já iria anoitecer. E nada da gravata.
                    - Mário, amorzinho... tente se lembrar onde colocou pela última vez esse bendito relógio, faça um esforço!
                    Como dizer à mulher que fora a gravata que sumiu, que se escafedeu? Um presente que ela lhe dera com tanto amor, carinho, num dia tão especial. Não, não diria. Compraria uma outra igual aquela... Mas como? Aquela era insubstituível! Era o seu grande sinal de sorte!
                    Homem não chora, diziam a ele desde moleque. Porém, Mário não sentiu receio algum. Eis que se pôs a choramingar no colo da mulher feito uma criança abandonada, e os filhos em volta, a esposa a fazer cafuné, todos com os olhos cheio d'água.
                    - Pobrezinho do papai... sussurrou um dos meninos, abraçando o sofrido pai.
                    A sua vontade era de espalhar aos quatro cantos que havia perdido a sua gravata. Gritar ao mundo inteiro! Sair de casa em casa a procura. Revistar pessoa por pessoa. Ligar para a polícia. Mas tudo isso seria um exagero... Não para  ele, não para ter de volta a sua estimável gravata! Porém, continuaria a esconder da mulher o que de fato perdera.
                    Mário transitava por toda a casa. Chorando. Para lá e para cá. Compulsivamente. Em lágrimas. Até que, não aguentando mais, ligou para a polícia - aproveitou que a mulher saiu com os meninos. Denunciou um roubo em sua casa.
                    Uma viatura bateu em sua porta. O policial entrou, deparando-se com uma casa que era mais um verdadeiro quebra-cabeças.
                    - Então, seu Márcio... Seu Márcio né?
                    - Exato.
                    - Pela bagunça parece que fizeram uma festinha por aqui. E parece que não saíram com mãos abanando... O que roubaram tanto?
                    Mário enchugou as lágrimas antes de responder.
                    - Roubaram o que eu tinha de mais precioso, o que eu mais estimava... - e por um fio ele não se derreteu em lágrimas novamente.
                   - O quê, seu Mauro?
                   - Roubaram... - assuou o nariz.
                   - Roubaram?
                   - A minha bela gravata italiana... presente da minha querida mulher! - desembuchou, meio choroso.
                   O policial franziu a testa, o olhar ficou carrancudo.
                   - O senhor tá me dizendo que um ladrão entrou nesta casa e deu-se ao trabalho de roubar apena uma gravata?!
                   O policial parecia perplexo.
                   - Sim, a minha estimada gravata...
                   A autoridade, que estava sentada, ergueu-se indignada.
                   - Ora, seu Marcos! O senhor ligou pra polícia e me fez vir até aqui, deslocando uma viatura, gastando combustível, pra dizer que roubaram uma gravata, apenas e unicamente uma gravata, umazinha?!
                   - Não se trata de uma simples gravata, seu policial. Trata-se de um amoleto de sorte! E toda essa bagunça que o senhor está vendo foi por causa dela, a procuramos em todos os cantos dessa casa e nada, e nada! Nem sinal dela...
                   - Faça mil favores, seu Marcelo! Tenha santa paciência! - impacientou-se o policial.
                   - Eu sei que parece ser coisa de nada pro senhor, mas juro que, se não achá-la, não sei o que será de mim...
                   - Então, seu Márlon, se acha que pode morrer por causa de uma gravata, trate de procurá-la!
                   O policial entrou na viatura.
                   - Mas... e a minha grav...
                   - Dê-se por satisfeito. E dê graças a Deus por não prendê-lo por trote! Tenho coisa mais importante pra resolver... Passar bem, seu Máfrio!
                   - Mário.
                   - Que seja! Passar bem, seu Mário!
                   - Espere!
                   - E se por acaso o senhor não encontrá-la, tome um calmante. Ou se interne num manicônio!
                   E partiu o policial.
                   - Esse seu Marcolo deve ter algum problema, não é possível... É cada um que me aparece! - comentou a autoridade a si mesmo, quando entrava numa outra rua.
                  Não compreendiam Mário. Sabia que era apenas a perda de uma gravata, sim, sabia, não estava perdendo as estribeiras, mas aquela sua gravata tinha um quê de especial, por tudo, pelo seu momento tão especial ao ganhá-la.
- Insensíveis! Desumanos! - era o que todos eram.
Aquele dia seguiu-se triste. Um vazio explodia em seu peito, rasgando a sua alma.
Saiu. Foi curar sua dor e solidão num bar, num boteco qualquer. Não bebia sequer vinho, mas era preciso esquecer aquele dia, aquela perda.
- Uma bebida bem forte! - pediu, desolado.
Minutos se passaram; um homem aproximou-se - nunca tinha visto aquela criatura. Mas isso não importava, era o de menos, só precisava mesmo era de alguém para desabafar, e até mesmo uma estátua serviria.
- Estou bebendo pra esquecer a minha italiana, amigo.
- Ora, que coincidência! Tô bebendo pra esquecer minha baiana.
Sentaram-se lado a lado, como dois grandes e velhos amigos. Dois camaradas.
- Então brindemos a elas, amigo!
- Viva!
Brindaram, muito caridosos um com o outro. E choraram também, um no ombro do outro.
- Você não tem idéia de como ela era linda, toda vermelhinha...
- A minha era uma preta maravilhosa...
- Eu era o homem mais feliz do mundo... Do mundo não: do universo!
- Também...
- Ai, ai...
- É...
Mário já estava na quarta caipirinha...
- Se bem que a esperança é a última que morre! - exclamou repentinamente.
- Hãn?
Pagou a conta -  a dele e a do seu mais novo amigo - e saiu num movimento de vai e vem rumo à sua casa.
- Até, amigo, a gente se vê por aí!
- Boa sorte! E não perca a esperança de encontrar a sua italiana.
Estava trôpego. Alguns metro do boteco, ouviu alguém lhe gritar. Não deu atenção. Continuou andando, tropeçano aqui e ali, zonzo.
- Amigo! - gritaram novamente.
Quem seria? Uma voz do além?
- Ôh, amigo!
Olhou para os lados, não havia ninguém.
- Amiiiigo!
Olhou para trás e finalmente percebeu que era  o seu camarada que lhe gritava, já no outro lado da rua.
- Bonita! Muita bonita! - gritou novamente, apontando para Mário.
- Bonita?! - indagou-se Mário.
- É. Bonita gravata!... Onde comprou?!
Mário olhou para o peito. E lá estava a sua tão procurada gravata!
E continuou Mário, andando e cantando.
                   
   
Samuel Silva Teixeira
Enviado por Samuel Silva Teixeira em 01/10/2007
Código do texto: T676377

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