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Fernando Pessoa e eu.

Conheci Fernando Pessoa quando eu tinha 18 anos. Foi meu pai quem nos apresentou. Comecei a ler por acaso, pois nem sabia nada sobre ele, sobre sua vida, sobre seus mistérios. Era um daqueles nomes que eu havia estudado no colégio, que fazia parte de uma época, de um período, de um estilo, tudo definido, organizado e catalogado nos anais da História. Eu nem imaginava que Ricardo Reis era Fernando Pessoa. Que Álvaro de Campos era Fernando Pessoa. Que Fernando Pessoa era Fernando Pessoa. Mais do que isso: que Alberto Caeiro era.

Li Fernando Pessoa quando eu tinha 18 anos, eu era uma menina e reparem que eu não disse apenas uma menina, pois uma menina já é o todo. Ali, naquele instante, naquela primeira página, tudo o que era fumaça em mim virou fogueira e eu enxerguei a forma concreta que tinham os meus pensamentos. Eu me vi em Fernando Pessoa. E não porque eu era boa o suficiente para isso, mas porque ele era suficientemente singelo. Meus pensamentos mais infantis, meus medos, minhas dúvidas, meus amores e meus ódios, minhas brigas prematuras e imaturas com a Igreja e, por que não, com Deus, minhas dores imensas e minhas delicadas alegrias, minha leveza sempre tão pesada de ser carregada e meu peso leve, tão leve, constantemente a flutuar. Eu estava em cada linha que os meus olhos percorriam, minha alma se desdobrava a cada palavra, em cada poesia meu coração se revelava e se tornava ainda maior e mais profundo.

Toquei Fernando Pessoa quando eu tinha 18 anos, talvez porque essa seja a idade em que crescemos, talvez porque era parte do meu crescimento. A verdade é que Fernando Pessoa, mais cedo ou mais tarde, em um momento ou em outro, sempre se mostra para quem deve conhecê-lo. E não é necessário buscá-lo. Ele vem para tomar posse do lugar que é dele. Porque existem alguns lugares que são dele. Em algumas pessoas. Não as que são escolhidas, mas as que o aceitam. Eu ainda pouco sei de sua vida. Menos ainda de seus mistérios. Vislumbro, ao longe, o seu esoterismo e o seu poder, sem alcançar. Mas o que sinto me inunda.

Aceitei Fernando pessoa quando eu tinha 18 anos e, desde lá, sempre que falo em Amor e em Deus minhas palavras passam por ele. Não porque ele me ensinou, mas porque disse que eu poderia.

“Ele dorme dentro da minha alma
E às vezes acorda de noite
E brinca com os meus sonhos.
Vira uns de pernas para o ar,
Põe uns em cima dos outros
E bate as palmas sozinho
Sorrindo para o meu sono.”
(Alberto Caeiro - O Guardador de Rebanhos)

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Mulher de Sardas
Enviado por Mulher de Sardas em 17/03/2005
Código do texto: T6837
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Sobre a autora
Mulher de Sardas
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 36 anos
50 textos (9977 leituras)
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Mulher de Sardas