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Droga da Ciência

Para todos aqueles de sonhos partidos, de perdas irreparáveis, para todos aqueles que ainda acreditam em alguma coisa que seja mesmo depois de tudo, para todos aqueles que odeiam a indiferença e o comodismo. Eis aqui o meu grito, o meu mais forte grito de protesto e libertação. A minha homenagem as pessoas que amo, encarnadas ou não, a minha homenagem a todos os que sonham e choram...

Há muito conheci uma moça muito legal. Vinha de uma família bem abastada mas isso não era importante para ela (odiava a riqueza, como odiava a escravidão e a discriminação sócio-racial), gostava muito de ler. Ela era uma flor, como a flor de Drumond. Eu, não enxerguei a beleza daquela flor antes de conhecê-la realmente. Era uma flor de cerejeira, ou uma árvore sândalo. Flor kamikase...





Espero fazer jus a esta pessoa tão importante na minha vida.










Muitos livros na estante de madeira de compensado, muitos livros. Rabiscos na parede, não apenas rabiscos. Uma janela que dava para fora de um Rio de Janeiro caótico, há muito decadente. O sol se pondo atrás das casas do morro, o calor, o barulho lá fora. A TV ligada em um canal qualquer, um copo de bebida na mesinha de cabeceira. Comprimidos de calmantes e uma calma assustadora naquele quarto. A porta trancada, o telefone mudo.






Meu amigo gótico, amiga que mora na lapa, meu amigo que já morou em vários lugares, minha amiga que nunca morou, amiga com filha, amiga lésbica, amiga "bi", amiga "ficante" de um amigo, amigo que não vejo há muito tempo, amiga que não vejo há muito tempo. Um dia em especial, que todos se encontraram em volta da mesa do bar Verde. Uma foto de Ghandi, outra do Bob Marley e outra do Che também marcavam presença. Todos tinham o teto baixo, os olhos e as mãos nos copos e nada diziam. nada havia para dizer.






Korova, Korova Milkbar era o nome da banda punk que nunca foi. Apenas um ensaio. Se mal me lembro, também era o nome do zine punk anarquista que teve apenas uma edição. As idéias eram muitas, mas as oportunidades eram poucas porque os problemas eram muitos também. Ou, pelo menos era o que pensávamos naquela época, até os problemas aumentarem mais. Ou até o nosso campo de visão aumentar mais. Os problemas não são só nossos.






A Lapa é um lugar pequeno, aliás, o Rio é pequeno. Porém, é bem maior que Teresópolis. Eu a vi por esses dias, por lá. Com outra amiga que não via também há muito tempo. Ela estava envolvida nos protestos contra o "caveirão" nas favelas. Eu não estava envolvida com nada, apenas com a faculdade e com um cara que não tinha nada haver comigo. Ela de certo deve ter pensado isso também.






A ação social, de forma inexplicável me envolveu também. Muito por acaso. Nela encontro muitos amigos de longa data e muitos amigos novos. Onde está minha velha amiga, que não vejo há tempo? Não tenho notícias. Um grande amigo meu me inicia na prática do estêncil e da colagem, talvez eu tenha o iniciado também. Agimos juntos. Se ELA estivesse aqui, agiria também. Na calada da noite, quando ninguém mais sabe quem somos nós. Um estêncil muito interessante de uma silhueta jogando o símbolo do cifrão no lixo aparece lá perto de casa, em Teresópolis. Alguém suspeito vem me perguntar quem o fez. Não sei, nem diria se soubesse. Pergunto aos que conhecem, quem foi. Com certeza foi nossa amiga, ou foi o nosso outro amigo que faz arte. O estêncil foi apagado.






Uma exposição de artes orientais num museu muito famoso do Rio me atrai. Vou com meu atual companheiro contemplar as belas obras de arte. Encontro uma pessoa conhecida, mais uma amiga. "Como está?", pergunto, "tudo bem, e você?", responde perguntando; "estou bem, mais ou menos", eu digo. Soube de uma notícia nada boa. "Eu sei, o que me conforta é que ela queria fazer isso, foi consciênte". É, mesmo assim.






Panfleto anti-homofobia, achei na internet um completo, bem bonito, não precisei montar. Levei para Teresópolis a pedidos de meu amigo. Fomos colar em alguns orelhões e bares. "Este panfleto parece ser feito por nossa amiga", ele diz. Provavelmente. "Ela bem que podia estar aqui conosco", eu digo. "Você não soube?", ele pergunta. "O que houuve?", pergunto eu. Ela se matou. Meu deus! Eu não estava sabendo de nada. "Foi a dois dias, eu também não fiquei sabendo no dia", ele disse. Ela morreu.



Mas foi uma escolha DELA.






Quando não importa mais? O que faz você não se importar mais? Quando a vida chega a tal ponto que não existe mais euforia ou desespero, quando você acha que já viu tudo nesse mundo e nada mais te espanta, e aparece algo mais escabroso ainda... Com o quê mais há de se importar?






"Eu soube que havia um acorde secreto



Que david tocava, e que agradava o senhor



Mas você não liga para música, não é?



É assim..., a quarta, a quinta,



O menor cai, e o maior sobe,



O rei frustrado compõe aleluia"



(Jeff Buckley)






Antes de ontem, eu, Bruno e Donato ouvíamos essa música (Haleluijah) no Rei do Limão do Parque Regadas. Era à tardinha. Falávamos de você. O Bruno sente muito a sua falta, todos nós. Todos nós nos perguntamos o que estamos fazendo aqui. Eu queria ver o que está escrito em seu epitáfio. Bruno disse que nós deveríamos tê-lo escrito. Ele perguntou como nós iríamos morrer. Isso é uma boa pergunta...






Em memória de Amanda, como nós a conhecíamos. Pena eu não ter tido a oportunidade de conhecê-la melhor. Talvez, o quanto você fez parte de minha vida já foi o bastante...
Flame eyes
Enviado por Flame eyes em 09/10/2007
Código do texto: T687378

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Sobre a autora
Flame eyes
Teresópolis - Rio de Janeiro - Brasil, 31 anos
56 textos (2331 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 20/10/17 17:50)
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