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FALSAS VERDADES - parte 2 - Os Sertões de Euclides da Cunha

    Durante muito tempo, escutei as pessoas falarem sobre o famoso livro de Euclides da Cunha. E ouvia as pessoas dizerem, que se tratava de um livro que descrevia a formação do povo nordestino; que exaltava as qualidades deste povo e que relatava a covarde guerra ocorrida em Canudos, e de que forma ali, muitos destes nordestinos, perderam a vida. Então, um dia eu li Os Sertões, e confesso que fiquei absolutamente espantado. Encontrei apenas uma única frase em todo o livro, que pudesse ser compreendida como um elogio aos nordestinos. E fiquei mais espantado ainda, porque sei que muitos nordestinos leram o livro, e não ligaram a mínima para as acusações feitas a eles, pelo próprio Euclides da Cunha.
    Euclides da Cunha, foi a Canudos para relatar jornalisticamente o massacre que ali estava ocorrendo. E aproveitando-se de todos os seus escritos sobre a guerra, ele optou por não se limitar a reportagens, e resolveu escrever um livro. Ele relatou a guerra sim, mas tinha a sua própria opinião sobre ela, e foi por isso que escreveu Os Sertões.
    Nessa época, a ciência realmente afirmava, que havia raças superiores e raças inferiores. E baseado nessas teorias, que eram o que havia de mais moderno, Euclides da Cunha, desenvolveu o seu raciocínio para explicar a revolta de Canudos.
    Ele começa o livro contando a formação do povo nordestino, e relatando, de que forma, este povo se tornou mestiço. Ele explica minuciosamente, o que a ciência dizia sobre a raça branca, a negra e a indígena; e deixa claro, que acreditava-se haver uma grande superioridade dos brancos, sobre as outras raças. Após explicar as diferenças entre estas três raças, ele passa a usar o termo: "raça superior," quando se refere aos brancos, e utiliza o termo: "raças inferiores," para os negros e indígenas. Ele faz tudo isso com um único propósito: provar que homens mestiços são naturalmente incivilizados e incapazes de viver integrados à sociedade. Ele diz que os mestiços, pela sua incapacidade de se tornarem civilizados, inevitavelmente, em algum momento, se revoltarão contra a sociedade; e que a revolta de Canudos, não seria nada mais do que isso: a revolta dos mestiços e incivilizados. Ele relata que os nordestinos foram ali massacrados, mas não deixa de dizer, que eles foram os únicos responsáveis por este massacre.
    Euclides da Cunha, termina o livro dizendo: "Este não é um livro de defesa, mas de ataque." Esta frase está no último capítulo do livro, onde ele esclarece que não o escreveu, para defender os pobres que ali morreram, mas para defender a sua teoria sobre as causas da guerra.
    Sempre ouvi as pessoas dizerem, que Os Sertões era um livro que exaltava as qualidades dos nordestinos, mas ao lê-lo, compreendi que nada disso estava escrito. Perguntei-me: o quê está acontecendo? Será que sou a única pessoa que interpretou o livro de outra maneira? Conversei com um amigo sobre isso, e lhe indaguei a respeito do livro, que ele havia lido alguns anos antes, quando prestou vestibular. Para meu alívio, ele disse que concordava com a minha interpretação: "Sim..." ele disse "...o livro é um ataque direto aos nordestinos."
    Sinceramente, não sei porque, as pessoas julgam Os Sertões, uma grande reportagem a favor dos nordestinos; quando está claro no texto de Euclides da Cunha, que para ele, os nordestinos são os vilões.
    Na escola, só ouvi coisas boas sobre o livro e sobre o autor; ninguém me disse o que realmente estava escrito ali. Os professores me ensinaram o que haviam aprendido com os seus professores, e ensinaram sem permitir aos seus alunos, fazerem qualquer tipo de interpretação sobre o que estavam lendo, pois já lhes davam uma interpretação pronta. Esse é o mesmo tipo de absurdo que ocorre com a teologia, alguém ensina: "Isso é o que está escrito!" E pronto, não se admite nenhuma outra interpretação.
    Não entendo como uma coisa que não é verdade, possa se propagar como sendo verdadeira. Mas sei, que às vezes ocorre, de críticas severas, exaltarem as qualidades daqueles que foram criticados; e isso, é claro, sem intenção alguma do crítico. Talvez seja esse o caso de Os Sertões. Euclides da Cunha, ao narrar o surgimento de um povo mestiço no nordeste brasileiro; conseguiu nos convencer do quanto este povo é bravo e lutador. Ele só queria nos convencer de que eles não passavam de incivilizados, mas contando a história deste povo, ele nos falou das suas qualidades; e foram elas que ficaram.


   
Provocador
Enviado por Provocador em 10/10/2007
Reeditado em 10/10/2007
Código do texto: T688040

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Sobre o autor
Provocador
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 35 anos
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