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Êxodo

Ontem, da estrada asfaltada, pude ver os campos e lavouras esturricados pela falta de chuva. Não chove há muito tempo. O céu não tem formação de nuvens. Está infinitamente acinzentado. O calor dentro do carro me faz suar em bicas. Não posso com ar condicionado, então é agüentar as pontas. As pastagens não passam de ramas secas. Quando o vento dá nelas,  sobem redemoinhos, levantando poeira. Os bezerros apartados, estão tão magros que uns se encostam nos outros para se sustentarem de pé. O capim braquiária, que predomina nas pastagens desta região de serrado, está todo queimado. Parece que morreu de vez, não fosse ele uma praga. E por aqui ainda é possível manter o capim elefante e as canas em condições de tratar de parte do gado. Agora, ao retireiro há duas opções: vender as vacas por preços de bananas ou mandá-las para o açougue. No nordeste, á assim que começa o êxodo.

Não há registro arqueológico ou histórico da existência de Moisés ou dos fatos descritos no Êxodo. A libertação dos hebreus, escravizados por um faraó egípcio, foi incluída na Torá provavelmente no século VII a.C., por obra dos escribas do Templo de Jerusalém, em uma reforma social e religiosa. Nunca se soube se o êxodo existiu mesmo. E o êxodo no teatro romano era o fim de uma comédia e início de uma tragédia. Mas que no nordeste é hora do êxodo, isso está visível. Acabou a comédia política e o nordestino começa a enfrentar a tragédia de sair de casa ou morrer de fome e de sede. É hora das “viúvas de maridos vivos”, ou seja, os maridos deixam as esposas e vão, temporariamente, para Goiás trabalhar para enviar sustento à família. São Raimundo Nonato, nome adotado por Chico Anísio em seus programas humorísticos, fica habitado somente por mulheres, velhos e crianças, igualmente na antigüidade quando os maridos partiam para a guerra e alguns até exigiam o cinto de castidades para suas esposas. Eis até um diálogo de um conto enfadonho do italiano (1893/1975) Pitigrilli (não confundir com putzgrile) “Cinto de castidade”:

No museu,  o  guarda de serviço naquela sala aproximou-se dos dois estrangeiros:
— Origem ignorada — explicou indicando o cinto de castidade —. Instrumento bárbaro, usado na Idade Média pelos cavaleiros ciumentos, que partiam para longas guerras e queriam ter uma garantia segura da fidelidade das suas esposas.
— E levavam a chave? — perguntou Felka.
— Sim, senhora — respondeu o guarda.
— E só havia uma chave? — perguntou Felka.
— Ora! — disse com um sorriso cheio de subentendidos o malicioso guarda —. Acho que cada senhora teria, para seu uso, uma chave falsa...
José Lindolfo Fagundes
Enviado por José Lindolfo Fagundes em 10/10/2007
Código do texto: T689288
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Sobre o autor
José Lindolfo Fagundes
Divinópolis - Minas Gerais - Brasil
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