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Cidade do interior


Morar em cidade do interior é,quase sempre,algo muito enfadonho quando passamos da idade de ilusões e fantasias. Alguns poderão estranhar estas minhas palavras iniciais e perguntar: "o que ela que mesmo dizer com isto"?  Eu explico.
Quando nós somos jovens, adolescentes e até crianças,sempre idealizamos o mundo que nos rodeia, ainda que este não corresponda às nossas expectativas. As pessoas são sempre amáveis e honestas, a maldade é um mito, a solidariedade é sempre a tônica na vida de todos e assim por diante. Só conseguimos enxergar o lado bom das pessoas e dos fatos.Isto acontece porque a maldade ainda não nos abriu os olhos para a verdadeira realidade que nos cerca. 

A maldade abre os olhos?! Sim, ela chega de mansinho e funciona como um despertador reacendendo os nossos instintos de sobrevivência, aguça a nossa atenção para que nada passe despercebido à nossa vista e análise.Acredito-me nesta fase.Instintos aguçados,percepção sensível a tudo que me rodeia.

Moro em uma cidade interiorana, onde a maledicência é a tônica na vida da grande maioria das pessoas e nem tudo são flores por aqui. Encravada no sudoeste da Bahia, cercada por morros que impedem que seja devidamente arejada, vai acumulando no seu bojo as energias negativas emanadas dos seus habitantes e isto me faz recordar de um filme bem antigo que assisti certa vez, intitulado O Caldeirão do Diabo.

Hoje, após ir ao Banco resolver algumas pendências de ordem pessoal,assistí na fila,homens discutindo a vida alheia. Naquele ambiente eles desejavam sobressair e usavam um verbo mais arrojado.No caso, as vítimas eram pessoas de proeminência no cenário nacional: senadores, ministros,deputados...Escutei  e viajei na boçalidade que caracteriza-nos.Retornando para casa resolvi assistir um filme , na TV, intitulado A Marca da Forca, com um grande ator,Clint Eastwood,belo homem e excelente interpretação.

O filme versava sobre um indivíduo que teria sido incriminado de haver assassinado um casal de idosos para roubar-lhes o gado e, nove homens resolveram enforcá-lo porém não se certificaram se estava morto, afastando-se do local dosinistro,deixando-o dependurado na árvore, quando foi encontrado,de imediato,por um homem da lei que o levou ao condado mais perto e ali ele foi solto porque já haviam descoberto o verdadeiro assassino que seria enforcado com mais cinco, outros,criminosos.Fiquei assistindo aquela cena de enforcamento, que se passou numa época bem distante e meditando....Até hoje seres humanos ainda são punidos através do enforcamento e, muitos de nós, assistimos com imparcialidade serem cumpridas as suas sentenças. Ou será que estarei mentindo?!

Observem e me respondam. Quando um pai de família, com três filhos e esposa, recebe ao final do mês um salário de trezentos e oitenta reais para sustentar a sua família em tudo, será suficiente tal salário? Cobrirá todas as necessidades básicas da família?
Algumas pessoas dirão: existem os postos de saúde, os dentistas voluntários e dos referidos postos e até psicólogos na rede
pública.Mas se é assim tão bom, porque os mais abastados não utilizam tais serviços ? Quando vemos crianças abandonadas nos semáforos, vendendo balas e outros biscates e/ou até assaltando e nada fazemos.Alguns dirão: Existe o poder público,o Estado, para resolver esta situação nós temos mesmo que nos defender.
E se um filho destes abastados resolverem agir de forma similar?

Quando assistimos, de braços cruzados, os idosos serem maltratados pelos próprios familiares, serem abandonados nos asilos de maneira indiferente e maldosa.Alguns dirão: Pra que eu vou interferir em problemas de ordem familiar que não me
compete?

E assim estamos e vamos assistindo os desmandos sociais sempre achando que não é da nossa competência fazer uma denúncia anônima,que seja; amparar um menor abandonado,
enfrentar alguma situação desagradável para sermos úteis e solidários.

Então concluí: evoluímos muito pouco da época dos enforcamentos para os dias atuais quando se discute a maioridade penal.Bem verdade que as punições, em alguns Estados e países estão mais atenuadas. Não mais crucificam nem enforcam.Os presídios estão se rendendo às evidências da necessidade de ocuparem os presos trabalhando e/ou estudando a fim de que realmente atinjam o objetivo da ressocialização.

Mas aqui fora?! Ainda tem muita coisa a se desejar...A gritante desigualdade social, a maldosa e impiedosa má distribuição de renda,o descaso por aqueles que passaram da idade ativa,a indiferença ante as crianças abandonadas...há muito o que se fazer e por fazer.Moralmente estamos ainda no período da pedra lascada,quiçá bem pior.


E assim caminha a nossa humanidade...Bjss e paz!
Imagem:site google
Sônia Maria Cidreira de Farias
Enviado por Sônia Maria Cidreira de Farias em 15/10/2007
Reeditado em 28/03/2013
Código do texto: T695921
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Sônia Maria Cidreira de Farias
Jequié - Bahia - Brasil
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Sônia Maria Cidreira de Farias