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No dia em que sonhei...

Ainda embriagado pelo clarão da noite urbana, sinto em mim, grandemente avaro, um vazio latejante, como que espelhado sob o banho prateado do luar. Chego a Pedra do Sal, cujas pedras banhadas pelas afagantes ondas do mar refletem a volúpia transfigurada de minha loucura. Ali, no alento salgado, e de razão vencida, parecia ouvir uma serenata singela na lira de Orfeu e um coro de arcanjos que me saudava a cada instante, dentro da contemplação esquisita da quimera.
Por um instante, parecia Deus ter piedade e misericórdia de mim, já que arrebatado até o passado, até a felicidade que um dia vivenciei em meus dias de inocência, revivi o nunca vivido. Voltei à época onde fazia castelos na areia da praia e sonhava em ali morar, como que apunhalando em uma de minhas mãos frêmitas uma espada, e parecia ouvir as poesias que o mar declamava com doçura fugaz, naquele vai-e-vem das ondas que se perdem na arrebentação. Minha realidade estava na valsa da cidade, ou melhor, na cacofonia de bêbados e carros. Ainda no sonho, num ínterim profundo, acordei num campo seleto e arado com um sabiá em meu ombro e meu pai estendendo-me a mão, sorrindo carinhosamente, mostrava-me a aurora resplandecente, talvez, a mais bela já vista por mim... Ai! Temo em nunca mais contemplar aqueles raios solares, onde as cores pareciam, ao longe, desenhar o prisma de um arco-íris. Faltava-me o ar quando andava nas cortinas da fumaça urbana. Nem percebi quando meu sonho me carregava, também, ao destino das dunas, com um pedaço de tábua a deslizá-las, em diversão própria da infância, aonde eu chegava maravilhado, no mergulho arrebatador das divinas águas da Lagoa do Portinho, atmosfera poética banhada por um céu rajado e cinzento, misturando sua cor com o azul sublimar que escondia o grandioso Sol.
Sonho maravilhoso que ainda não parava de trazer agradáveis surpresas escondidas em meu coração maltratado. Voltei a Sociedade dos Poetas Parnaibanos e aos meus inesquecíveis amigos, onde juntos desenvolvíamos com serenidade e amor nossas poesias inspiradas na constância amarga que nos envolvia com serenidade e paixão. Éramos jovens, inocentados pela falta do entendimento descontente da vida real. Inspirávamos as letras e expirávamos cultura do fundo de nossa frágil alma pueril. Fazíamos de nossas casas o Jardim dos Poetas, em volta da esplendorosa bromélia que, ali, nascia inquieta e tímida, nos levando a uma outra atmosfera de excitação poética. Era mágico o entardecer, a despedida do Sol nas terças-feiras veladas pelo manto sagaz da maestria musical de cada poesia declamada, de cada verso vivido, em cada canto perdido na iminência daqueles casarões que nos ouviam com atenção, e quando cantávamos à sapiência da vida e o amor às letras.
Despertei desesperadamente com uma onda que me abraçava como um cobertor, arrancando maldosamente aquele belo sonho, que já não seria mais o mesmo (minha alma triste tentava avisar). Voltei a dormir com as suaves brisas que sopravam em meus ouvidos carentes, tudo em sintonia com o marulho. As lembranças não regressavam mais como antes, assim, quando deixei de escrever por achar que não era mais capaz. Aos meus olhos, as letras perderam o sentido e passei então a um estagio vegetativo e deprimente, sem expectativas e sem rumo, como uma canoa sem remo, nem leme, no meio das correntezas ferozes de um rio; à deriva, me mantive a curtos passos! Tristeza esta que me atormentava ao longo desse sonho já descaracterizado. Como se não fosse pouco, ele me levou até o âmago da decepção, onde fui apunhalado pelo primeiro amor pródigo, com doses fortes de fel no coração.
Acordei novamente triste e vi um arco-íris no lugar da aurora, aquele alvorecer se tornava místico para com um ser que assistia depois da quimera e pensava, e pensava... Depois de um sonho bom é hora de um pesadelo, e então o Sol surge a banhar, com seus raios quentes, e afagando, um pobre ser que chora na escuridão de seu destino. Vi, além de tudo, meu espaço tão pequenino ganhando proporções extensivas e suaves, nascendo de mim um soneto, o primeiro soneto, que ressurgiu das letras e para elas voltei a viver como uma fênix renascendo nas cinzas do meu descontentamento.
Machado Gomes
Enviado por Machado Gomes em 17/10/2007
Código do texto: T698783

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Sobre o autor
Machado Gomes
Parnaíba - Piauí - Brasil, 30 anos
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