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Boi no asfalto


Por volta de 1968, impressionado com a quantidade de bois que o nosso João Guimarães Rosa conduzia do pasto ao mundo campineiro de suas estórias, julguei que o insuperável bruxo não ficaria chateado comigo se eu usasse um deles num poema de minha autoria que estava precisando de um boi, só um boi.

Por que um poema panfletário de um cara de vinte anos de idade, que morava num bairro inteiramente urbanizado, iria precisar de um boi? Não servia um daqueles bois que puxavam as grandes carroças de lixo que chegara a ver na infância, demarcando território pelas ruas de Marechal Hermes com seus fumegantes troços de bosta?

O caso é que na época eu estava lendo toda a obra publicada de Guimarães Rosa, e isso influiu direto na minha escolha.

Tudo bem.

Mas onde esse boi iria entrar no poema? O que é que um boi podia fazer num poema panfletário? Um estribilho berrante? Um enjambement bovino? Uma farra sem outros bois?

Não, não.

Eu queria mesmo era um boi perdido no asfalto. Sei que era exatamente isso o que eu queria.

Queria que a minha primeira namorada, toda feliz por ter um poeta em seus braços, fosse testemunha de que eu era capaz de pegar um boi de Guimarães Rosa e desfilar sua solidão bovina num mundo completamente estranho para ele, sangrando inutilmente a língua para encontrar apenas o chão duro e escaldante, perplexo diante dos homens de cabeça baixa, desviando-se dos bêbados e dos carros, sem saber muito bem onde ele entrava nessa história toda de opressores e oprimidos. No fundo, dentro do meu egoísmo libertador, eu queria um boi de poema concreto no asfalto, para que minha impotência diante dos donos do poder se configurasse no berro imenso desse boi de literatura, e o meu coração, ou minha índole, ficasse para sempre marcado por esse poderoso símbolo de resistência, longe do rebanho.

Fez muito sucesso, entre os colegas, o meu boi no asfalto. Sei até onde se acha o velho caderno com o ruidoso poema. Mas não vou apanhá-lo — o poema já foi escovado tantas vezes, que hoje não passa de um terceto mínimo, sem a inspiração daquele momento privilegiado.

Ainda assim, esse boi no asfalto continua brilhando a sua luz, transformado em minha própria estrela.


[18.10.2007]

Luiz Guerra
Enviado por Luiz Guerra em 18/10/2007
Código do texto: T699223

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Sobre o autor
Luiz Guerra
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 69 anos
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